sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O que você sente, afinal?

- Confesso que tenho me preocupado ultimamente com você. Sabemos de nossa situação e você, principalmente, da minha. Não tenho nada a oferecer, não sou neste momento a pessoa mais indicada para te satisfazer, muito menos te acompanhar. Sinto dizer isso, sinto em não corresponder. E você é preciosa demais em minha vida para fazer-te sofrer. Fique atenta, proteja-se... não sofra por mim.
A garota abriu um largo sorriso. Suspirou, olhou algum tempo para aquele jardim de inverno, desejou saltitar sobre algumas pedras colocadas cuidadosamente como em um caminho sinuoso. Pediu para que o moço encanado sentasse confortavelmente no sofá, estendesse seus braços, tirasse os sapatos e fechasse os olhos. Ele o fez, mesmo achando aquilo tudo muito patético. A garota se aproximou do teu rosto, deu-lhe um beijo na testa, correu a ponta de seu dedo indicador em toda a face dele. Sentiu vontade de chorar, talvez esta fosse a última vez que pudesse tateá-la. Voltou seu olhar para as mãos repousadas sobre os joelhos e, finalmente, descreveu sem medo o que sentia naquele exato momento:

- Não tenha medo do que eu venha sentir ou sofrer. Tudo o que fiz até agora foram escolhas, somente. Escolhi sentir e ler com minhas mãos a tua pele tudo o que um dia esqueci de ser: sensível, terna, calorosa, amável... sonhadora! Não chamo isso de amor ou qualquer coisa do gênero. Carrego comigo a sensação do reencontro. Estar aqui, diante dos teus olhos é um simultâneo reencontro - comigo e contigo. É um caminhar descalço sobre a grama ainda úmida pelo orvalho. É sentar-se na beira de um lago cristalino e sentir uma paz que adormece os sentidos. É poder tirar o sapato apertado depois de uma festa e deixar os pés em água morna por alguns minutos. Tocar teu corpo, ouvir o som de tua voz, rir de tuas piadas bobas... Leio, compreendo, guardo para mim. Estou digerindo, aprendendo, vivendo e me permitindo ser feliz enquanto estou aqui. Quando passar daquela porta, não sei.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bono Vox

Só passando pelos quase 28 anos que a gente percebe o quanto foi idiota aos 18 e, não menos imbecil aos 27. Os trinta batendo no meu portão enferrujado e nada de paixonites platônicas deixarem a cabeceira da minha cama ou os pôsteres invisíveis colados nas minhas paredes.
Eu deveria ter me apaixonado platonicamente por alguém um pouco mais novo ou próximo de minha realidade. Definitivamente, Bono Vox nunca suprirá minhas carências. Nem que eu grave uma fita K7 (para ficar ainda mais vintage) todos os refrões capazes de fazer meu coração mudar de compasso. Apaixonar-me por ele foi um grande erro.
Ele nunca saberá dos versos que compus, nunca validará minhas opiniões a respeito do trabalho que desempenha, não me acordará no meio da noite para pedir "bis" e jamais deixará que eu faça parte deste mundo tão restrito, intenso e apreciado por tantos.
Apesar de considerar esta paixão unilateral um grande erro, tenho uma coleção de "Bonos" na gaveta. Um para cada ocasião. Todos eles me ensinaram um milhão de coisas, mas agora estou suplicando que eles mudem de nome ou saibam quem é a Canela.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pedra

Sou a pedra bruta, não trago brilho, muito menos conforto.,
Sou aquela que não caminha, assiste.
Aqueço, esfrio, aqueço novamente.

As estações do ano passam por mim.
Expresso a solidão involuntária.
Sou o retrato do turista, a mórbida pedra dentre tantas outras.

Aguardo a maré alta,
Só a força das águas podem mover-me daqui.
Alguns centímetros talvez,
Um caminhar lento sob força incontestável

Maresia... embriaguez
Peso sem história
Massa rígida desejando o impossível:
A leveza do ar.

Foto: Canela

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Acusações do Teto

Vejo este teto chorando tuas goteiras intensamente e sinto que estou olhando para um espelho. Sou toda entregue às lágrimas e não sei quando elas irão secar.

Deito-me de bruços, não quero mais o espelho por perto. Mas ele insiste em questionar:

- Não vê que não pode alimentar-se apenas de poesia? Não vê que que parte de tua tristeza é apenas a ausência de uma pequena dose de orgia? Não vê o quanto é capaz de seduzir e não usa isso ao seu favor?

Dou-lhe um soco no travesseiro, tapo os ouvidos, fecho os olhos. Minutos depois sinto o cafuné, o beijo atrevido na nuca, a respiração ofegante... Estou entregue.

Viste? Nem o teto, muito menos o espelho entendem! Preciso apenas de cuidados especiais.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Redemoinho



Enquanto amanhece sinto teu beijo doce e o meu coração leve.

As horas passam, os problemas voltam...

Enquanto anoitece, a paz me esquece.
Foto: Canela

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quinquilharias

Em vez de bloco carnavalesco, corre para o exílio.
Em vez de assistir à alegria estampada na TV, assiste a própria face no espelho.
Em vez de ler o jornal, busca companhia nos livros biográficos.

Sabe que tua alegria não nascerá ou morrerá na quarta-feira de cinzas. Aquela lágrima impressa do Pierrot não sairá com água e sabão. Notícias e fatos sobre a vida de pessoas que não conhece a faz mais livre do que as informações de último minuto veiculadas na internet.
Fantasia sua tristeza com o colorido de um velho palhaço. Coleciona pedras ornamentais, pois alguém um dia lhe disse que isso faria bem para equilibrar os chakras, entretanto, ainda não soube como ativar o "poder" contido nelas por séculos. Alegra-se ao tirar a poeira escondida embaixo do tapete dos outros e já não usa mais tapete em sua casa.

Preenche todos os espaços com objetos. Está sufocada por eles.

Acumula personalidades. Acumula frustrações. Acumula necessidades.

Abriu uma poupança recentemente para acumular sucesso e prazer.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Chapéu de Palha

Quero aquele chapéu.
De palha, usado - para não dizer que está bem esgarçado.
Cobriu e refrescou a cabeça.
Semeou e colheu bons frutos.
Secou o suor da fronte,
foi derrubado pelo vento.
Aguardou fielmente seu dono durante os dias frios,
retornou ao uso nas tardes quentes.
Protegeu, estilizou e peneirou alguns pensamentos.

Quero aquele chapéu,
Que aguarda e assiste.
Que vive e conta histórias.

Desejo-o sobre a cabeça,
Também o quero pendurado ao lado do criado mudo
enquanto o antigo dono divide a cabeceira comigo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Ligação

Hoje não ligarei para saber como está, se teus atos estão de acordo com o que planejou ou se já de adaptou novamente à rotina escolar. Não ligarei para falar de trabalho, muito menos para fazer cobranças. Hoje, ligarei para você com um único intuito: assumir minha vontade de ser teu instrumento, matar minha curiosidade e poder retribuir o prazer que me faz sentir ao dançar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cadê a rima?

Quem segue a sina?
Quem sobe a ladeira?
Quem escolhe a rima?
Quem perde a calma?
- Calma? Calma não rima com ladeira! - disse o soberbo.
- Não rima? - respondeu o poeta.
- Não! - afirmou indignado.
O poeta suspirou, bebeu mais um gole da marvada, ouviu o som das sandálias de uma menina magrela sorridente descendo o morro e afirmou:
- Só quem tem fôlego sobe a ladeira. Quem enxerga o que busca durante tanta peleja não desiste. Quem já não vê graça na rima, quem encara tudo como sina, há de perder a calma algum dia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Antes

Antes de acreditar na morte dos sonhos, fui coveira do meu próprio tesouro.

Antes de correr descalça sob a chuva, desfigurada pelo pranto que, misteriosamente, não se mistura às gotas frias, passei meu melhor perfume e agradeci a mim mesma por tal atrevimento.

Antes de acreditar em tuas verdades e feitos, preferi omitir e fingir não acreditar nas mentiras que crio.

Antes de conhecer os meus instintos, tornei-me a presa dos instintos alheios. Vítima, não! Caça, alimento... Desenvolvi, paulatinamente, minha defesa. Logo parto para o ataque!

Antes de acreditar em opiniões devastadoras, tapei os ouvidos e abri meus olhos. Cores vibrantes e cheiros que abriram o meu apetite instantaneamente foram grandes conselheiros.

Antes de perdoar instantaneamente, aprendi a calcular o tamanho da dor que ainda existia em mim.

Antes de acreditar em finais felizes, quero saber como se faz "inícios pacíficos" e "meios" recheados de entrega, descoberta e fascínio mútuo.