quarta-feira, 31 de março de 2010

Visita inconveniente

Quem disse que quero seguir teu caminho? Nem adianta atordoar meus pensamentos enquanto durmo porque sei bem que, por mais difíceis que as coisas sejam por aqui, manusear tuas armas não me fará melhor.

Tua força pode até me manter sem ação por alguns instantes, mas carrego em meu peito uma ponta de esperança de que poderei fazer o melhor que puder daqui em diante.

Não deposite em mim tua fraqueza e angústia. Não me asfixie, tuas mãos já tiveram força um dia, hoje não passa de vulto fúnebre.

Reconheça tua condição, já esteve por tempo demais a me perturbar. Não tenho pena de ti e não mudarei meus planos novamente. Reconheça tua essência, junte-se aos teus... me deixe em paz!

terça-feira, 30 de março de 2010

Alagamento

Estive hoje no transito caótico durante o temporal e claro, deparei-me com diversos pontos de alagamento. Passei por muitos deles sem ter consciência do quanto a água poderia afetar o motor do meu carro. Regrinha básica: engate a primeira, respire fundo e vá com calma.
Quem dera transferi-la ao meu coração. Antes de seguir, gostaria muito de poder sair do carro e medir a profundidade em que meu veículo poderia atravessar. Tomada pelo impulso desejei atravessar o grande lago que se formou naquele cruzamento, mas ao ver de longe carros maiores do que o meu enguiçando, resolvi mudar o curso e fazer uma conversão proibida.
Se pudesse voltar atrás, se pudesse desfazer as fantasias que se enredaram em minha mente, talvez não teria meu coração bloqueando o cruzamento da altoestima, muito menos imerso nestas lágrimas que já não pedem mais licença para escorrer: transbordam simplesmente.
Quer situação mais ridícula do que enfrentar um alagamento sabendo que não poderá atravessá-lo? Assim como temos impulsos para a defesa de nosso patrimônio ao fazer manobras arriscadas ou proibidas, deveríamos também cuidar um pouco mais dos nossos sentimentos.
Consegui chegar em casa após o congestionamento e uma parte de mim ficou perdida em algum lugar por aí.

terça-feira, 23 de março de 2010

Contabilizando

Vivo em alguns metros quadrados. Trabalho a poucos quilômetros daqui. Meu restaurante favorito está mais distante do bolso do que de minha casa. A música que desejo ouvir agora depende apenas da velocidade de minha conexão para que possa tê-la em meu acervo. Dois travesseiros e fronhas limpas são o suficiente para me deixar confortável. Depois de 15 anos vivendo num mesmo espaço, resolvi contar os azulejos do box para não pensar em mais nada enquanto tomo banho. Tive a oportunidade de conhecer mil histórias vividas por uma só pessoa e mil pessoas que não foram capazes de dizer nada sobre elas. Às vezes tenho a sensação de que sou a última a acreditar na transparência dos atos e a primeira a esquecer o quanto dói não ser retribuída. Já pensei em inventar uma máquina que pudesse calcular a intensidade de minhas paixões, assim não investiria meus pensamentos às cegas correndo o risco de sofrer decepções. Três latas de cerveja são capazes de me provocar ressacas profundas. Pergunto-me se a força do pensamento é capaz de provocar arrepios em outra pessoa. Já viajei trinta horas para desfrutar da luxúria, pura e simples, por vinte e quatro. Esperei dez anos para que o "verdadeiro amor", concebido ainda na adolescência, batesse à minha porta. Caminhei mais de 80km ininterruptamente em busca de paz, mas só a encontrei tomando alguns analgésicos para dores musculares. Contabilizei a profundidade dos abismos que me separaram das pessoas que elegi para amar; aprendi que se permanecer por muito tempo no escuro, perco as referências e não consigo chegar do outro lado: ambos devem se esforçar para superar a distância. Não fui necessariamente bem sucedida nas poucas tentativas que fiz, mas já penso em fazer um curso rápido de engenharia para construir todos os tipos de pontes. Se há algo mágico na contagem do tempo, esta seria a repetição dos algarismos, 23h23, é o melhor minuto do dia e não sei dizer o por quê. Três gotas do meu perfume favorito preenchem minha autoestima muito melhor do que o manequim reduzido. Já li um livro inteiro em uma só noite e até hoje, este mesmo livro ainda é referência para preencher o vazio de quinhentas outras. Estou há dias contabilizando tudo o que possa passar pela minha mente e não tenho resposta para uma única questão: quanto tempo levaria para explicar a real importância de determinada pessoa em minha vida?

domingo, 21 de março de 2010

Domingo

Acordei hoje com aquela sensação boa que os sonhos deixam. Busquei uma posição confortável entre os lençóis e travesseiros para que pudesse lembrar do enredo, das personagens e dos diálogos para que esse prazer se prolongasse por mais alguns minutos.

Permaneci estática, vasculhei a memória mas não encontrei nada. Quando desejamos prorrogar o início do dia não se desiste tão fácil: optei pelas cenas reais.

Um intenso monólogo, olhares furtivos, ouvidos atentos aos instrumentos que se revezavam, mãos que dançavam e descobriam timidamente o palco dos corpos.

Sem ensaio nem coreografia, apenas dois expectadores.

Este prazer desfrutado com tamanha intensidade foi tão etéreo que já se confunde aos sonhos de uma manhã de domingo que não quer começar.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Feto exposto

Estou muito longe das habilidades monumentais de um poeta, mas hoje sinto o abismo de dor que todos eles sentem. Uma dor estéril, venenosa e auto-destrutiva.

Queria agora tomar emprestada as tintas e pincéis de Lasar Segall para pintar a agonia cinzenta de um sonho que perde vida assim como aquela criança morta cuja mãe insiste em aquecê-la sob os traços desfigurados de Picasso.

Abandono o tempo e o contratempo da dança porque esse nó em minha garganta indica um movimento único: o de posição fetal. Um feto que não está protegido, não tem consolo ou abraço. Não há luz, não há som, não há alimento.

A Canela poeta, pintora e dançarina é estéril. Está morta.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Vivo cada minuto, morro ao final do dia

É sempre assim. Um sopro de vida e alegria quando consigo ter uma noite tranquila de sono, acordo em paz e com muitas coisas para fazer e realizar durante o dia.

As horas passam, muitas coisas se emperram ora por inabilidade minha de dominar meu tempo, ora por ser ansiosa demais e desejar retorno direto e concreto.

O Sol se põe e a escuridão perturba muito mais meu coração do que a própria noite. Vivo cada minuto e parte de mim se esvai em lágrimas ao final do dia.

Desejo a morte desta escuridão atordoante. Quero morrer como os amores que a passos silenciosos afastaram-se de mim.*

Não consigo aceitar o distanciamento daqueles com quem ainda tenho tanto para aprender, viver... amar.
*Neguinho

quarta-feira, 10 de março de 2010

Uma terceira opinião

Já faz parte do nosso calendário: paralisações, ofensas de todos os lados, discursos, promessas e um grito desesperado e amargo de cada profissional envolvido com a Educação Estadual que se transforma em nó. Afinal, gritar alto demais pode atrapalhar a vizinhança. Silenciar, num soluço dolorido, parece ser mais prudente.

O problema é quando acumulamos tantos soluços; quando não conseguimos direcionar nosso grito aos ouvidos certos; quando leis e estatísticas sobrepõem-se às almas. Temos direito a uma terceira opinião. Mas quem deseja ouvi-la? É como ser obrigado a participar de uma queda de braço, porém, os rivais já estão definidos e uma terceira mão ali não ajudará em nada para ambas as partes.

Concordar parcialmente com as mudanças estabelecidas nos últimos anos pela atual gestão parece “peleguice” aos olhos dos radicais e desejar um plano de carreira que corresponda ao esforço real de um profissional, garantindo assim, um reajuste em seu salário e melhores condições de trabalho parecem ser impossíveis aos cofres públicos – os mesmos que pagam salários astronômicos para os que nos dizem representar.

A condição do magistério não nos exime de sermos avaliados constantemente. Entretanto, o insucesso de nossos alunos não pode ter apenas o professor como responsável e o único a obter punição. Afinal, é apenas a Escola a responsável pela formação de um cidadão? Quando esse aluno passa dos portões para a rua, quem cuida deles?

Muito do que aprendem em sala de aula, pode não fazer o menor sentido fora dos muros institucionais, mas tudo o que vivem, não ficará para trás quando é hora de entrar na sala. Qual é o papel do professor ao mediar todas estas situações? Isso não é medido pelo SARESP.

Não subestimem os que possuem uma terceira opinião, não os julguem antes de conhecer suas reais dificuldades e necessidades. A GREVE instituída nesta semana só retira dos alunos o direito que possuem de aprender. Mas se houvesse uma forma de manifestar insatisfação pelas condições que nos dilaceram diariamente, qual seria?

terça-feira, 9 de março de 2010

Feliz dia de quem?

Recebi diversos singelos "Parabéns" pelo dia Internacional da Mulher. Inclui-se aí um monte de versos e exaltação da feminilidade. Mas uma destas, chamou a atenção. Um artigo publicado por Guilherme Fiuza (jornalista, autor de Meu nome não é Johnny) que listou o significado atual desta data.

Nem havia me lembrado do tal 8 de março até achar estranha a quantidade de flores disponíveis hoje no supermercado e de pessoas na fila do caixa "expresso" com as ditas cujas nas mãos. Homens orgulhosos por carregar dois ou três botões de rosa vermelha achando que poderiam fazer uma média com a "patroa".

Não nos iludamos, certo? Não aceito os cumprimentos de quem chamou a namorada, amante, ficante ou esposa de "Dona Encrenca"! Também não represento o modelo de feminilidade, beleza e, muito menos fortaleza. Tenho um medo paralizante de novos desafios, corro léguas do modelo maternal, fraterno e do sexo frágil. Quem disse que para sermos mulheres temos que carregar todo este fardo?

Carrego todos os dias para o travesseiro a ausência, o sonho perdido, a angústia pelas novas escolhas e o desejo de que algum dia isso possa mudar. Se isso acontecer, Feliz Dia Internacional da Mulher pra mim também!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Água com gás

Trouxeram-me cachaça, cerveja, vinho tinto, tequila, whisky e champagne. Experimentei com cuidado cada uma destas bebidas. Embreaguei-me e o prazer que cada gole pode me proporcionar não superou o mal estar causado pela ressaca.

Certo dia, resolvi não esperar por nenhuma bebida. Servi-me de água com gás. Encarar o privilégio de se sentir saciado, em sã consciência, não é para muitos.