É como uma lesma passeando sem direção. Deixa aquele rastro gosmento e me causa náuseas! A vontade é de caminhar livremente, observar e também causar algum tipo de admiração por onde passar. Assim como fazem as borboletas. Quem dera!
Quem dera ter a certeza de que ao me refugiar em casulo, houvesse a certeza de que criarei asas. De que poderei transitar, impactar e reproduzir este milagre. Sepultar o rastro.
Muito estranho este fenômeno. Enquanto me adaptava à nova condição - a de lagarta saciada e pendurada de cabeça para baixo - pintei um quadro: cada pincelada tomou forma com estas mãos. Era um rastro colorido cheirando a tinta fresca. Causava-me orgulho. Criei algo que pudesse me dar conforto nos dias de reclusão, um mapa que me desse direção.
Eis que o casulo se rompeu. Em vez de borboleta, virei lesma. E a minha tela um borrão asqueiroso.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Octoalegoria
Soprou teu convite oito vezes e eu só aceitei o último. Estava em luto nas outras sete tentativas: estava surda! O oitavo foi diferente. Ao acordar de um sono profundo, no dia 8 de março, um lembrete: "Seque os olhos!". E assim o fiz, paulatinamente. Desde então, o exercício diário era o de regar pensamentos que floresciam, dar cor aos desejos - antes vestidos de negro - e movimento a um borboleteio que jamais ousara dançar.
Dar-me por satisfeita com o convite não era o bastante. Havia a necessidade de me aproximar e entender as razões daquele anfitrião insistente - por vezes arrogante -, mas caminhava na Praça da Sé. Entre solfejos, juntei todos os trapos de coragem, costurei-os com fios de esperança e fui para a sua festa vestida de colcha de retalhos, nada mais. A mistura de sons e sotaques fazia daquela festa atemporânea!
Enfeitada de mim
e sem ilusão para desfigurar,
brinquei de roda fingindo
Sendo esta mais uma alegoria da vida, ela não deve ser perfeita: havia um pingo sem i. A alegria vivida naquele ambiente era ameaçada pelo embargo dos surdos, quase vi a morte das noites de loa ao luar. Assisti ao olhar cinza do dono da festa. Logo agora que passei a acreditar que amor não deveria dormir!
Por sorte, aquele anfitrião adora uma farra e só precisava se recolher brevemente. A festa não acabou e não acabará enquanto ele deixar fluir novas cores de seu bandolim. Se hoje estou aqui contando tudo isso é porque eu cri, por ele crer.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
A cena
É a cena mais patética de todas. Coisa mais ridícula de se fazer e pior, assumir publicamente que a fez. Algum analista poderia chutar, imediatamente, algum transtorno de alguma coisa ou o distúrbio de não sei o quê. Sua mãe já mandou aquela velha benzedeira - a mesma que lhe causava náuseas ao esfregar aqueles galhos de arruda e manjericão na sua testa quando era criança - ver se, por acaso, a coitada sofre de algum mal-agouro, quebrante, macumba ou encosto. Nada feito! Confessar teus pecados regados de luxúria e ambição à um padre não lhe renderiam lugar algum no Paraíso. Não há arrependimento. A cena, é de uma melancolia tão viciante que nem em sonho atreve-se a invertê-la. A cena é patética, porém, foi desta forma que guardou o que é mais precioso em seu coração.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Prateleira
O que realmente incomoda
é ser mais uma embalagem na prateleira
Instantaneidade, praticidade...
descartabilidade
Na onda da sustentabilidade
as relações que se mantenham fora desta discussão!
Uso e descarte
E o futuro da credibilidade?
Mantidas apenas na embalagem:
A falta de adaptação ao mercado conduzirá,
fatalmente, ao produto fora de linha.
Sou desalinhada!
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
(Educação - Cultura)² + Bairrismo = Xenofobia
É sempre muito gratificante quando encontro referências de autores dos quais estudei durante a graduação sendo revisitados sob outras óticas. O caso do cientista político Francisco Weffort é um grande exemplo. Enquanto estudante, lutava para conseguir um horário para ler suas publicações e garantir (claro!) a minha nota nas aulas de História Econômica e Social do Brasil.
Questões de conflito regional alimentadas sob ótica ignorante não surgirão apenas em anos de eleição presidencial. O preconceito se mistura ao sarcasmo nosso de cada dia, age de forma silenciosa e só é colocado no banco dos réus se acaso houver uma grande comoção popular.
Em uma entrevista concedida ao site Produção Cultural no Brasil, o ex-ministro da Cultura do governo FHC fala mais do que sua experiência enquanto acadêmico e gestor cultural, ele aponta algumas respostas para uma uma das feridas das quais o nosso povo mais padece e espero que não seja discutida somente enquanto estiver na moda ou nos TT's: a ignorância!
Mais uma vez, meus caros, só teremos um Brasil "avançado", quando a educação e a cultura forem realmente levadas a sério e suas políticas públicas estiverem baseadas na continuidade e não em ciclos de 4 anos.
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Apócrifos silenciosos no e-mail, vuvuzelas autorais no Twitter
Durante os meses que antecederam as eleições o volume de emails apócrifos repassados pelas pessoas que possuem o meu contato em seu mailling aumentou vertiginosamente. Em alguns casos, cheguei a responder com "cópia para todos". Expus, com seriedade, a minha posição contrária a este tipo de comportamento e procurei, muitas vezes, usar do bom humor e muita paciência para questionar o conteúdo destas mensagens.
O resultado disso não foi muito favorável, claro! Espero que muitos tenham excluído meu contato de suas listas, pois já não há como tolerar argumentações elitistas, xenófobas e sem fundamento histórico algum.
Bastaram os resultados das urnas serem confirmados neste último domingo para que uma avalanche de comentários preconceituosos viessem a tona... mais uma vez!
Com o Twitter, a coisa finalmente tomou proporções que muitos não teriam imaginado. Uma vuvuzela autoral! Boa parte do que recebia no email, não tinha dono. Era de alguém que outro alguém achou "engraçado" e repassou. Já o Twitter...
Como me considero uma otimista de carteirinha, vejo tudo isso não só como um exercício de avaliação da exposição de suas opiniões entre os usuários das redes sociais, como também a possibilidade de nos questionarmos e, finalmente, rompermos essa corrente de preconceitos (silenciosos) que grande parte da população recebe, acha graça e repassa para seus contatos.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Uma cor entre o vermelho e o verde
Iniciei a escrita deste post em meados de agosto. Naquela ocasião, senti algo que ainda não sabia definir, algo que havia guardado na gaveta de frustrações há muito tempo: esperança!
Em agosto já tinha bem claro quais seriam os principais candidatos dos quais receberiam minha parcela de poder; e confesso, não foi uma tarefa tão simples quanto nas outras duas últimas eleições das quais minha idade permitiu participar diretamente.
Filha de um metalúrgico e uma empregada doméstica, cresci embalada pelas críticas e brutais chacotas que faziam ao meu pai por defender, publicamente, seu voto. Minha mãe preferia sempre o silêncio e, para não se sentir agredida indiretamente, fazia de tudo para colocar "panos quentes" sobre o assunto. Doía-me não ser "grande" o suficiente para entrar na conversa dos adultos e defender também aquilo que eu já achava certo.
A primeira eleição presidenciável da qual pude participar foi em 2002 (olha só como eu sou jovem, minha gente!), aos 20 anos e prestes a encerrar do curso de História. Assisti de perto muitas discussões, dentro e fora da universidade, onde todos os motivos pelos quais um certo "da Silva" deveria assumir o bastão e coordenar o país.
Convicta de que aquele seria o momento de fazer virar o jogo, minha postura como educadora e "formadora de opinião" passou a tomar forma, ainda que timidamente. Saía nas ruas vestida de vermelho; como não tinha carro, a solução foi colar adesivos nas pastas onde guardava as anotações e livros da faculdade: meus maiores bens! Ao retornar para casa, discutia abertamente sobre o assunto entre estudantes de cursos diferentes do meu. Deixava-os defenderem seu posicionamento antes de contra-argumentar; esta sempre foi uma boa estratégia, pois era a partir dos argumentos que eu tinha entendia - mais ou menos - o quanto a política era relevante para a vida daquela pessoa. Entretanto, o amargo sempre me vinha à boca: as chacotas contra os metalúrgicos, nordestinos e analfabetos...
Não sei descrever o quanto isso tira o apetite e faz acordar um sentimento que me desafia toda vez que ele se mistura ao sangue. As memórias da infância paralizavam meus sentidos e sabe-se lá Deus, o esforço que fazia para não piorar o suposto "diálogo" proferindo xingamentos. Política não era para ser discutida dessa forma, eu sabia disso. Para não cerrar os punhos, preferia sentar-me sobre as mãos... uma influência clara da mistura de temperamento dos meus pais.
No Reveillon de 2002 para 2003, vesti-me de vermelho. Além dos desejos que esta cor reserva para si, lá estava eu, diante da TV, assistindo ao lado de toda a família um dos momentos mais importantes para a história do Brasil e, especialmente, à familia "da Silva". O que pudemos vivenciar nos 4 anos seguintes foram previstos até que surgiram denúncias fétidas.
Em 2006, afastada plenamente das discussões que envolviam política, reelegi meu presidente com o único desejo de que nos próximos 4 anos não tivesse encarar um tucano em seu lugar. Desejava uma terceira via, um conjunto de atitudes que pudessem modelar um discurso do qual eu pudesse me encaixar. Onde o resultado do sangue inquieto de meu pai e a prudência de minha mãe pudessem se traduzir. Contudo, esse desejo só se materializou em 2010, com Marina Silva - mais uma Silva!
O partido do qual ela se aliou nunca me convenceu com seu "ecodiscurso". A grosso modo, vejo muitos tucanos-camaleões-verdes. Até posso estar enganada... contudo, o tempo fez mostrar algumas penas azuis e amarelas saírem do armário.
Precisei contar tudo isso (dois meses depois de iniciar a escrita deste post) para explicar porque a esperança voltou a fazer latejar este sangue que andava um tanto aguado: pela primeira vez, desde 2002, assisti um discurso emocionado de Lula em Osasco durante um comício. Ao lado dele, um personagem vestido de palhaço, cuja voz conhecia muito bem, pois eram nas noites mais sombrias - nas quais nem meus pais ousavam compreender o abismo onde havia enterrado meus sonhos -, que aquele palhaço cantava versos de ninar à uma recém adulta que achou que poderia mudar algo sozinha.
Entre 2006 e 2009 vi tudo o que construí como profissional da educação pública esvair-se. Não havia saída. Somente um grupo de palhaços que davam suas faces para o beijo e para o tapa poderiam ter, quem sabe, uma ideia do que é ser professor neste país. Eles são também formadores de opinião: são artistas!
As manifestações de alegria nas redes sociais desta trupe, logo após o comício, foram ressuscitando aquele meu pulsar acelerado da infância até 2002. Ao contrário do que muitos fazem, eles não se abateram com as críticas vindas de seu público e persistiram manifestando, abertamente, suas opiniões.
Percebi, através desse gesto, que grandes mudanças não ocorrem rapidamente e que nossos ideais podem ser potencializados se forem somados à outras esferas de nossa sociedade: educação e cultura devem caminhar juntas!
E por não concordar plenamente com o conjunto de ideias de um partido e tentar, mais uma vez, desencaixotar a esperança que havia se desgastado (assumidamente entre o verde e o vermelho), me permiti acompanhar, registrar e comemorar a vitória de Dilma Roussef ao lado de Gustavo Anitelli, Fernando Anitelli e Galldino de Santana. Três grandes homens pintados de sonhos e ousadia que, através da arte, fizeram acordar uma mulher orgulhosa de seus tropeços, paciente para tomar novas decisões e não desanimar perante seus ideais, pois eles não dependem necessariamente de uma cor para vestir.
Em agosto já tinha bem claro quais seriam os principais candidatos dos quais receberiam minha parcela de poder; e confesso, não foi uma tarefa tão simples quanto nas outras duas últimas eleições das quais minha idade permitiu participar diretamente.
Filha de um metalúrgico e uma empregada doméstica, cresci embalada pelas críticas e brutais chacotas que faziam ao meu pai por defender, publicamente, seu voto. Minha mãe preferia sempre o silêncio e, para não se sentir agredida indiretamente, fazia de tudo para colocar "panos quentes" sobre o assunto. Doía-me não ser "grande" o suficiente para entrar na conversa dos adultos e defender também aquilo que eu já achava certo.A primeira eleição presidenciável da qual pude participar foi em 2002 (olha só como eu sou jovem, minha gente!), aos 20 anos e prestes a encerrar do curso de História. Assisti de perto muitas discussões, dentro e fora da universidade, onde todos os motivos pelos quais um certo "da Silva" deveria assumir o bastão e coordenar o país.
Convicta de que aquele seria o momento de fazer virar o jogo, minha postura como educadora e "formadora de opinião" passou a tomar forma, ainda que timidamente. Saía nas ruas vestida de vermelho; como não tinha carro, a solução foi colar adesivos nas pastas onde guardava as anotações e livros da faculdade: meus maiores bens! Ao retornar para casa, discutia abertamente sobre o assunto entre estudantes de cursos diferentes do meu. Deixava-os defenderem seu posicionamento antes de contra-argumentar; esta sempre foi uma boa estratégia, pois era a partir dos argumentos que eu tinha entendia - mais ou menos - o quanto a política era relevante para a vida daquela pessoa. Entretanto, o amargo sempre me vinha à boca: as chacotas contra os metalúrgicos, nordestinos e analfabetos...
Não sei descrever o quanto isso tira o apetite e faz acordar um sentimento que me desafia toda vez que ele se mistura ao sangue. As memórias da infância paralizavam meus sentidos e sabe-se lá Deus, o esforço que fazia para não piorar o suposto "diálogo" proferindo xingamentos. Política não era para ser discutida dessa forma, eu sabia disso. Para não cerrar os punhos, preferia sentar-me sobre as mãos... uma influência clara da mistura de temperamento dos meus pais.
No Reveillon de 2002 para 2003, vesti-me de vermelho. Além dos desejos que esta cor reserva para si, lá estava eu, diante da TV, assistindo ao lado de toda a família um dos momentos mais importantes para a história do Brasil e, especialmente, à familia "da Silva". O que pudemos vivenciar nos 4 anos seguintes foram previstos até que surgiram denúncias fétidas.Em 2006, afastada plenamente das discussões que envolviam política, reelegi meu presidente com o único desejo de que nos próximos 4 anos não tivesse encarar um tucano em seu lugar. Desejava uma terceira via, um conjunto de atitudes que pudessem modelar um discurso do qual eu pudesse me encaixar. Onde o resultado do sangue inquieto de meu pai e a prudência de minha mãe pudessem se traduzir. Contudo, esse desejo só se materializou em 2010, com Marina Silva - mais uma Silva!
O partido do qual ela se aliou nunca me convenceu com seu "ecodiscurso". A grosso modo, vejo muitos tucanos-camaleões-verdes. Até posso estar enganada... contudo, o tempo fez mostrar algumas penas azuis e amarelas saírem do armário.
Precisei contar tudo isso (dois meses depois de iniciar a escrita deste post) para explicar porque a esperança voltou a fazer latejar este sangue que andava um tanto aguado: pela primeira vez, desde 2002, assisti um discurso emocionado de Lula em Osasco durante um comício. Ao lado dele, um personagem vestido de palhaço, cuja voz conhecia muito bem, pois eram nas noites mais sombrias - nas quais nem meus pais ousavam compreender o abismo onde havia enterrado meus sonhos -, que aquele palhaço cantava versos de ninar à uma recém adulta que achou que poderia mudar algo sozinha.As manifestações de alegria nas redes sociais desta trupe, logo após o comício, foram ressuscitando aquele meu pulsar acelerado da infância até 2002. Ao contrário do que muitos fazem, eles não se abateram com as críticas vindas de seu público e persistiram manifestando, abertamente, suas opiniões.
Percebi, através desse gesto, que grandes mudanças não ocorrem rapidamente e que nossos ideais podem ser potencializados se forem somados à outras esferas de nossa sociedade: educação e cultura devem caminhar juntas!
E por não concordar plenamente com o conjunto de ideias de um partido e tentar, mais uma vez, desencaixotar a esperança que havia se desgastado (assumidamente entre o verde e o vermelho), me permiti acompanhar, registrar e comemorar a vitória de Dilma Roussef ao lado de Gustavo Anitelli, Fernando Anitelli e Galldino de Santana. Três grandes homens pintados de sonhos e ousadia que, através da arte, fizeram acordar uma mulher orgulhosa de seus tropeços, paciente para tomar novas decisões e não desanimar perante seus ideais, pois eles não dependem necessariamente de uma cor para vestir.
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