Mostrando postagens com marcador insônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador insônia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Antes de passar

 Foto: Fábio Stachi

- Confesso que tenho me preocupado ultimamente com você. Sabemos de nossa situação e você, principalmente, da minha. Não tenho nada a oferecer, não sou neste momento a pessoa mais indicada para te satisfazer, muito menos te acompanhar. Sinto dizer isso, sinto em não corresponder. E você é preciosa demais em minha vida para fazer-te sofrer. Fique atenta, proteja-se... não sofra por mim.


 A garota abriu um largo sorriso. Suspirou, olhou algum tempo para aquele jardim de inverno, desejou saltitar sobre algumas pedras colocadas cuidadosamente como em um caminho sinuoso. Pediu para que o moço encanado sentasse confortavelmente no sofá, estendesse seus braços, tirasse os sapatos e fechasse os olhos. Ele o fez, mesmo achando aquilo tudo muito patético. A garota se aproximou do teu rosto, deu-lhe um beijo na testa, correu a ponta de seu dedo indicador em toda a face dele. Sentiu vontade de chorar, talvez esta fosse a última vez que pudesse tateá-la. Voltou seu olhar para as mãos repousadas sobre os joelhos e, finalmente, descreveu sem medo o que sentia naquele exato momento:


- Não tenha medo do que eu venha sentir ou sofrer. Tudo o que fiz até agora foram somente escolhas. Escolhi sentir e ler, com minhas mãos, a tua pele e pude enxergar tudo o que um dia esqueci de ser: sensível, terna, amável... sonhadora! Não chamo isso de amor ou qualquer coisa do gênero. Carrego comigo a sensação do reencontro. Estar aqui, diante dos teus olhos é um simultâneo reencontro - comigo e contigo. É um caminhar descalço sobre a grama ainda úmida pelo orvalho. É sentar-se na beira de um lago cristalino e me embreagar de paz. É poder tirar o sapato apertado depois de uma festa e deixar os pés em água morna por alguns minutos. Tocar teu corpo, ouvir o som de tua voz, rir de tuas piadas bobas... Finalmente compreendi! Estou digerindo, vivendo e me permitindo ser feliz enquanto estou aqui. Quando passar daquela porta, não sei.
 

terça-feira, 27 de julho de 2010

Brigando com o sono

Dava socos no travesseiro como se ele fosse o culpado por esta cabeça cheia de pensamentos desconexos. Ouvi passos na cozinha, e depois, percebi que era a torneira necessitando um reparo. Volto para a cama, desta vez, rocei minha face sobre o travesseiro: "Quem sabe um pouco de carinho permitirá a chegada e a fluidez do sono?"

Mal pude sentir o peso benevolente das pálpebras e o alarme do carro soou. Levantei-me novamente e, com o auxílio da luz do celular, alcancei a chave e o alarme. "Meu surto de atividade cerebral beirando as 5 da manhã teria alguma influência sobre os sensores do automóvel? Não sei."

De olhos fechados, conseguia enxergar a movimentação por aqui. Haviam muitos desconhecidos; alguns eu trouxe, sem querer, dos caminhos que outro percorreu por mim. Eles me seguiram!

Quanta ousadia! Como pode vir dividir os cobertores comigo? Não sei quem era, não vi a face, senti apenas o cheiro. Não era estranho, deixei por alguns instantes que repousasse uma de duas pernas sobre as minhas.

Ahh! Não me chamem de louca! Dormi sim de "conchinha" com alguém que tinha peso, tinha cheiro, mas não revelou sua face.

Não era pesadelo, não era sonho. Vi três crianças sorridentes próximas aos meus pés segurando uma grande moldura. Era um espelho. Eu não me refletia nele, as imagens refletidas alí eram das mesmas crianças que o seguravam.

Enquanto sacudia os cobertores e expulsava o estranho sob as cobertas, uma delas confessou ser meu filho, eu sorri para ele e fiquei aliviada. O meu filho existe, em algum momento ou plano, mas existe!

***
Agora sim, o desejado sono fluiu e me transferiu para outros locais.

A arquibancada, esperando não sei o que, ao lado de minha mãe e avó.

O carro desgovernado. O controle dos freios.Pessoas que gostaria de dar carona caminhando pela calçada. Não sei dizer se elas aceitaram minha oferta.

Meu irmão estacionou o carro em local proibido. Embaixo daquela tempestade, haviam poucos lugares onde pudesse me esconder. Quase caímos naquele estacionamento alagado. Havia lodo por toda parte. Imaginem? Além das roupas molhadas, teria de conviver com a sujeira verde nas roupas? Quero sair daqui!

Não havia mais porta. Já não estava no supermercado. Se desejasse sair de um espaço para o outro, deveria passar sempre por aquelas janelas estreitas. Um esforço inacreditável... Precisei de ajuda algumas vezes para desentalar. Os quadris sempre ficavam presos.

Um sorriso, a alegria por ter passado por mais um obstáculo.

***

Dez da manhã o celular tocou. Era o barbudo desejando um endereço ou nome, não sei... Só sei que acordei cansada e dores fortes nos braços.

Dormir esta noite foi uma briga!

domingo, 11 de julho de 2010

Caçando palavras

Chega-se a poucas conclusões quando os pensamentos se embaralham sobre o travesseiro. Cercar algumas frases e mandá-las para uma arapuca parece insanidade.

Imerso no caos, o pensante deve tomar coragem e abandonar os cobertores. Deseja, finalmente, registrar sua demasiada inquietação. Esforço inútil! A tela do computador espanta a melhor das frases, a melhor das declarações de amor e ódio. Creia: listas de supermercado também se dissolvem!

E agora o pensante, sem pensamento algum, voltará à sua cama antes que ela esfrie.