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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Posses e posses

Professor: Passa um aperto danado para cursar uma universidade, minimamente decente.
Deputado: Escreve um ditado para provar que é minimamente alfabetizado.

Professor: Tomado pelo desespero, faz cursos intensivos aos domingos e feriados para ser aprovado em concurso público.
Deputado: Seduzido pelas regalias, vende a alma ao diabo e a quem mais puder para ser eleito.

Professor: Após ser aprovado no concurso, leva um mapa para a escolha de vaga na escola que seja mais próxima à sua residência. Se der sorte, poderá pegar de duas a três conduções para chegar ao trabalho. Preenche diversos formulários para garantir 50% de desconto na passagem de ônibus.
Deputado: Após eleito, terá direito a passagens aéreas, casa, motorista e gabinete com todas as despesas pagas.

Professor: Faz, durante alguns meses, um novo curso preparatório oferecido pela Secretaria de Educação para se adequar-se "às novas práticas pedagógicas" e currículo escolar, se passar na prova ao final do curso poderá, finalmente, tomar posse.
Deputado: Participa,durante alguns meses, de acordos e lobby's partidários para garantir maior apoio dentro do Congresso, antes da posse.

Professor: Por ser iniciante, é um dos últimos a escolher suas aulas. Se der sorte, poderá completar sua jornada de trabalho em 2 ou 3 escolas diferentes. Mesmo assim está feliz, terá finalmente uma "estabilidade de emprego" e salário base de R$ 773,41 + auxílio alimentação de R$ 4,00.
Deputado: Chega em Brasilia para a posse de jatinho fretado é recebido com pompa e muitos flashs. Seu salário base acaba de ser reajustado em 61,8%, o que corresponde a R$ 26.700,00. Está feliz, até o final do ano, poderá fazer novas negociações no Congresso e aprovar um novo reajuste (e não será para o professor).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

(Educação - Cultura)² + Bairrismo = Xenofobia

É sempre muito gratificante quando encontro referências de autores dos quais estudei durante a graduação sendo revisitados sob outras óticas. O caso do cientista político Francisco Weffort é um grande exemplo. Enquanto estudante, lutava para conseguir um horário para ler suas publicações e garantir (claro!) a minha nota nas aulas de História Econômica e Social do Brasil.

Em tempos em que a xenofobia e o imaginário preconceituoso do brasileiro se revelam nas mídias sociais, a discussão sobre o antagonismo entre o Sentimento de Nacionalidade X Bairrismo se refletem diretamente na formação educacional e cultural de nosso povo. Considero as recentes manifestações do Ministério Público - de investigar e punir quem incita atos de violência e preconceito publicamente - apenas uma das ações necessárias para atenuar este problema.

Questões de conflito regional alimentadas sob ótica ignorante não surgirão apenas em anos de eleição presidencial. O preconceito se mistura ao sarcasmo nosso de cada dia, age de forma silenciosa e só é colocado no banco dos réus se acaso houver uma grande comoção popular.

Em uma entrevista concedida ao site Produção Cultural no Brasil, o ex-ministro da Cultura do governo FHC fala mais do que sua experiência enquanto acadêmico e gestor cultural, ele aponta algumas respostas para uma uma das feridas das quais o nosso povo mais padece e espero que não seja discutida somente enquanto estiver na moda ou nos TT's: a ignorância!



Mais uma vez, meus caros, só teremos um Brasil "avançado", quando a educação e a cultura forem realmente levadas a sério e suas políticas públicas estiverem baseadas na continuidade e não em ciclos de 4 anos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Apócrifos silenciosos no e-mail, vuvuzelas autorais no Twitter

Durante os meses que antecederam as eleições o volume de emails apócrifos repassados pelas pessoas que possuem o meu contato em seu mailling aumentou vertiginosamente. Em alguns casos, cheguei a responder com "cópia para todos". Expus, com seriedade, a minha posição contrária a este tipo de comportamento e procurei, muitas vezes, usar do bom humor e muita paciência para questionar o conteúdo destas mensagens.

O resultado disso não foi muito favorável, claro! Espero que muitos tenham excluído meu contato de suas listas, pois já não há como tolerar argumentações elitistas, xenófobas e sem fundamento histórico algum.

Bastaram os resultados das urnas serem confirmados neste último domingo para que uma avalanche de comentários preconceituosos viessem a tona... mais uma vez!

Com o Twitter, a coisa finalmente tomou proporções que muitos não teriam imaginado. Uma vuvuzela autoral! Boa parte do que recebia no email, não tinha dono. Era de alguém que outro alguém achou "engraçado" e repassou. Já o Twitter...



Como me considero uma otimista de carteirinha, vejo tudo isso não só como um exercício de avaliação da exposição de suas opiniões entre os usuários das redes sociais, como também a possibilidade de nos questionarmos e, finalmente, rompermos essa corrente de preconceitos (silenciosos) que grande parte da população recebe, acha graça e repassa para seus contatos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma cor entre o vermelho e o verde

Iniciei a escrita deste post em meados de agosto. Naquela ocasião, senti algo que ainda não sabia definir, algo que havia guardado na gaveta de frustrações há muito tempo: esperança!

Em agosto já tinha bem claro quais seriam os principais candidatos dos quais receberiam minha parcela de poder; e confesso, não foi uma tarefa tão simples quanto nas outras duas últimas eleições das quais minha idade permitiu participar diretamente.

Filha de um metalúrgico e uma empregada doméstica, cresci embalada pelas críticas e brutais chacotas que faziam ao meu pai por defender, publicamente, seu voto. Minha mãe preferia sempre o silêncio e, para não se sentir agredida indiretamente, fazia de tudo para colocar "panos quentes" sobre o assunto. Doía-me não ser "grande" o suficiente para entrar na conversa dos adultos e defender também aquilo que eu já achava certo.

A primeira eleição presidenciável da qual pude participar foi em 2002 (olha só como eu sou jovem, minha gente!), aos 20 anos e prestes a encerrar do curso de História. Assisti de perto muitas discussões, dentro e fora da universidade, onde todos os motivos pelos quais um certo "da Silva" deveria assumir o bastão e coordenar o país.

Convicta de que aquele seria o momento de fazer virar o jogo, minha postura como educadora e "formadora de opinião" passou a tomar forma, ainda que timidamente. Saía nas ruas vestida de vermelho; como não tinha carro, a solução foi colar adesivos nas pastas onde guardava as anotações e livros da faculdade: meus maiores bens! Ao retornar para casa, discutia abertamente sobre o assunto entre estudantes de cursos diferentes do meu. Deixava-os defenderem seu posicionamento antes de contra-argumentar; esta sempre foi uma boa estratégia, pois era a partir dos argumentos que eu tinha entendia - mais ou menos - o quanto a política era relevante para a vida daquela pessoa. Entretanto, o amargo sempre me vinha à boca: as chacotas contra os metalúrgicos, nordestinos e analfabetos...

Não sei descrever o quanto isso tira o apetite e faz acordar um sentimento que me desafia toda vez que ele se mistura ao sangue. As memórias da infância paralizavam meus sentidos e sabe-se lá Deus, o esforço que fazia para não piorar o suposto "diálogo" proferindo xingamentos. Política não era para ser discutida dessa forma, eu sabia disso. Para não cerrar os punhos, preferia sentar-me sobre as mãos... uma influência clara da mistura de temperamento dos meus pais.

No Reveillon de 2002 para 2003, vesti-me de vermelho. Além dos desejos que esta cor reserva para si, lá estava eu, diante da TV, assistindo ao lado de toda a família um dos momentos mais importantes para a história do Brasil e, especialmente, à familia "da Silva". O que pudemos vivenciar nos 4 anos seguintes foram previstos até que surgiram denúncias fétidas.

Em 2006, afastada plenamente das discussões que envolviam política, reelegi meu presidente com o único desejo de que nos próximos 4 anos não tivesse encarar um tucano em seu lugar. Desejava uma terceira via, um conjunto de atitudes que pudessem modelar um discurso do qual eu pudesse me encaixar. Onde o resultado do sangue inquieto de meu pai e a prudência de minha mãe pudessem se traduzir. Contudo, esse desejo só se materializou em 2010, com Marina Silva - mais uma Silva!

O partido do qual ela se aliou nunca me convenceu com seu "ecodiscurso". A grosso modo, vejo muitos tucanos-camaleões-verdes. Até posso estar enganada... contudo, o tempo fez mostrar algumas penas azuis e amarelas saírem do armário.

Precisei contar tudo isso (dois meses depois de iniciar a escrita deste post) para explicar porque a esperança voltou a fazer latejar este sangue que andava um tanto aguado: pela primeira vez, desde 2002, assisti um discurso emocionado de Lula em Osasco durante um comício. Ao lado dele, um personagem vestido de palhaço, cuja voz conhecia muito bem, pois eram nas noites mais sombrias - nas quais nem meus pais ousavam compreender o abismo onde havia enterrado meus sonhos -, que aquele palhaço cantava versos de ninar à uma recém adulta que achou que poderia mudar algo sozinha.

Entre 2006 e 2009 vi tudo o que construí como profissional da educação pública esvair-se. Não havia saída. Somente um grupo de palhaços que davam suas faces para o beijo e para o tapa poderiam ter, quem sabe, uma ideia do que é ser professor neste país. Eles são também formadores de opinião: são artistas!

As manifestações de alegria nas redes sociais desta trupe, logo após o comício, foram ressuscitando aquele meu pulsar acelerado da infância até 2002. Ao contrário do que muitos fazem, eles não se abateram com as críticas vindas de seu público e persistiram manifestando, abertamente, suas opiniões.

Percebi, através desse gesto, que grandes mudanças não ocorrem rapidamente e que nossos ideais podem ser potencializados se forem somados à outras esferas de nossa sociedade: educação e cultura devem caminhar juntas!

E por não concordar plenamente com o conjunto de ideias de um partido e tentar, mais uma vez, desencaixotar a esperança que havia se desgastado (assumidamente entre o verde e o vermelho), me permiti acompanhar, registrar e comemorar a vitória de Dilma Roussef ao lado de Gustavo Anitelli, Fernando Anitelli e Galldino de Santana. Três grandes homens pintados de sonhos e ousadia que, através da arte, fizeram acordar uma mulher orgulhosa de seus tropeços, paciente para tomar novas decisões e não desanimar perante seus ideais, pois eles não dependem necessariamente de uma cor para vestir.