domingo, 26 de agosto de 2012

Diário de tua ausência

"... o amor é isto, dar espaço e tempo a quem se ama, saber esperar, saber estar quieto, saber abrir os braços sem pedir nada em troca. A quietude é uma das normas do mundo.

(...)

foi quando finalmente percebi que tinha vivido um sonho. Um sonho tão perfeito, real e desejado, que me recusava a abandoná-lo. Nesse domingo, ao final do serão, enquanto a tua voz bem colocada e suave me enfeitiçava, o confronto com a realidade obrigou-me a sair da nuvem.

Tinha vivido um sonho maravilhoso e agora via-me obrigada a acordar, por isso chorei sem vergonha nem pudor, chorei como choram as crianças quando veem partir alguém que amam ou outro menino lhes parte o brinquedo favorito. A vida é um sonho, é o despertar que nos mata. Naquele serão, morreu um bocado de mim, mas mesmo assim decidi que não ia desistir. Ainda não, era demasiado cedo.

Não se entra duas vezes na mesma nuvem, mas o amor nunca acaba quando queremos. O amor é misterioso no seu nascimento, ainda mais misterioso no seu crescimento e insondável na sua morte. Durante semanas e semanas continuei a amar-te e a desejar-te, mesmo sabendo que não podia existir uma ponte entre nós, mesmo sabendo que o fim do nosso sonho se anunciava como certo.

(...)

Voltarás daqui a umas semanas, ou talvez meses e até o teu regresso ficamos os dois a pensar como é que somos suficientemente loucos para viver uma impossibilidade e suficientemente sensatos para não sofrer com ela.

Gostava que a tua casa fosse o meu coração. Se assim fosse, saberias sempre o caminho de volta, mesmo que o teu espírito nômade e fugidio te levasse a todos os lugares do mundo que queres tocar."

PINTO, Margarida Rebelo. Diário de tua ausência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011 - p.61-66

sábado, 25 de agosto de 2012

Hipótese

"É muito bom te inventar. Nasces do nada porque eu assim quero. Do nada, vens, mas te transformarei. Verás, Te transformarei em algo que ainda não sei por que desejo. Te transformarei no ser que sou e formaremos um ser uno e indissolúvel. Plasma.

É muito bom te amar enquanto hipótese somente. Nada sei de ti. Aliás, o que sabemos de nós ou dos outros? É como hipótese que te amo até o dia em que, soprando docemente em teus lábios, te trarei à vida.
Tenho sede de ti, tenho sede de mim, tenho sede de nós. Venha. Não temas. Do instante em que te concebi em minha mente, já sabia que vinhas para realizarmos o grande mistério do amor. Quero-te mais que a mim.

E só existes no campo das possibilidades. Quero-te abstrato, abstrato é tudo.

Vou te dizer um grande segredo, mas não digas a ninguém. Falarei assim, sussurrando e devagarzinho: a vida é uma grande mentira. Não me crês? Mas se não nasceste ainda, como sabê-lo? Eu afirmo, pois já nasci, então sei: a vida é só uma ilusão. Algum louco a inventou e nós de delírio vivemos. Verás. Eu te mostrarei a cada passo, a cada manhã que viermos a caminhar juntos. Não te arrependerás de teres vindo. Nem eu de ter te inventado. Viver pode ser bom. Às vezes. Nos instantes de pura fantasia, é sublime.

Nos instantes em que dois formam um, é loucura, fantasia, mistério, inventados pelo louco do qual te falei.

Agora, basta, quero-te matéria.

Quero-te aqui."

SILVA, Rosário Nascimento e. Notas sobre o abismo. Porto Alegre: Dublinense, 2012, p.99-100

segunda-feira, 5 de março de 2012

Conta tudo!

Sem entender muito bem o por quê, tentei aplacar tua desilusão num abraço. Olhei diretamente em teus olhos na esperança de que você reconhecesse a tua dor na minha. Depois disso, você disse que gostaria de saber a minha história. Senti uma pontada, um susto, paralisei... Me dei conta de que ninguém havia se interessado abertamente pela minha caminhada até aqui. Se houvesse tempo para um café, se não estivesse tão embriagada e sensível naquele momento, talvez teria contado sim. No entanto, fugi...

Não que me envergonhe do que fiz, pelo contrário. Eu só pensei em como seria contar de todos os tropeços de uma forma que as minhas decepções não nos contaminassem no presente. Foi então que percebi que lembranças alguma é capaz de assumir novos formatos. As minhas são tristes e se não fossem assim, seriam outras. O que muda, talvez, é o jeito que se olha para elas hoje.

Depois que nos despedimos, foi impossível não revisitar algumas memórias, numa tentativa de checar toda a bagagem para ver se elas ainda estavam lá... E sim, estavam! Tinham uma nuance menos densa, mais leve... Talvez esteja pronta para contá-las, não sei. Por que isso é necessário agora?

Acho que este seria um exercício excelente para que eu não cometa os mesmos erros. Lapsos que percebo que já estão a caminho e desejo corrigir o quanto antes.

E você? Qual é a sua história?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pare de tomar a pílula!

Ser tratado como opção não é de deixar qualquer cidadão feliz. Pelo menos os cidadãos ditos "comuns". Dizer que se sente pressionado para assumir um relacionamento pode ser visto de diversas formas. Geralmente vemos isso como uma absurda insegurança de uma das partes, mendicância, autoritarismo e desrespeito pelo espaço e tempo do outro. Sei que fui acusada e julgada por tudo isso aí, mas ando tão tranquila e vejo tudo isso de forma absolutamente inversa. A gente só percebe que expulsou boa parte dos nossos demônios em situações como esta. Apesar de ter me sentido magoada por alguns instantes, não pretendo mais sofrer com a indiferença, pelo menos a tua, não. 

Acho engraçado como todo mundo está disposto a pedir o tempo e a compreensão alheia. Mas, e a minha? Quem vai se dar o luxo de ceder uma parte de seu tempo para entender a minha versão da história? Como disse anteriormente, tudo é uma questão de ponto de vista. Lembra? Já falamos sobre isso. Entenda uma coisa: já tomei tantas vezes no cu, já me rebaixei tanto acreditando que se fizesse determinadas coisas, seria capaz de ter o amor do outro e nada disso deu certo. O mínimo que essas pessoas puderam contribuir foi com o fato de que eu deveria me dar um pouco mais de valor. Acho que tá dando certo, pois dificilmente alguém me tira do eixo. Seguia essa premissa - com alguns tropeços, claro! - até você chegar.

Sabe o que te diferencia dos demais? Você só ultrapassou algumas das minhas barreiras porque foi muito bem recomendado, porque demonstrou atitudes dignas, sensíveis e honestas. Sinceramente? Eu teria orgulho disso em vez de me sentir pressionada. E eu? Eu me senti segura diante de tuas atitudes... Se houve algum excesso meu aqui, vou dizer o que foi: excesso de segurança! 

Você chegou e me conheceu exatamente como sou. E não me furtei de mostrar o que posso ter de mais terrível e amável ao mesmo tempo: a intensidade dos meus sentimentos. Se for pra ser blasê, uso meus dedos... Ao menos não fingirei orgasmo, nem terei de tolerar mau hálito de ninguém. Entende o que quero dizer? Enquanto muitos não conseguem abrir mão dos próprios métodos, feridas e antecedentes, eu estou aqui: com cicatrizes enormes (ainda, infelizmente...), mas pronta para amar e ser amada novamente. Talvez não seja necessário dizer isso por parecer piegas e te causar certo desconforto. É eu sei que você evita sentimentalismos, mas eu tenho que dizer: eu ACREDITO que é possível amar quantas vezes forem necessárias. Uma vida sem quebrar a cara, sem sofrer, sem conhecer outras pessoas, comportamentos, sem decepções parece uma vida pela metade! De que vale eu passar tantas semanas num terapeuta passando a limpo minhas velhas experiências se eu não puder verificar se aprendi algo vivendo novas histórias? 

É claro que não vou atirar meu coração (nem minha buceta) ao primeiro que passar. A vida nos ensina e "selecionar", a identificar o que pode valer a pena ou não, arriscar. Entende agora que, ao invés de se sentir encurralado, devia se sentir lisonjeado? Paixão? Existe muita aqui dentro. Mas antes de ela ser tua, é minha. Os sentimentos, antes de mais nada, me pertencem; e agora tudo depende de como resolvermos esse impasse.  Se for capaz de entender nossas diferentes maneiras de enxergar o mundo, talvez esta história não se encerre como num aborto, nem nasceu! 

Outra coisa que você talvez não saiba: o meu pior defeito é o de acreditar nas pessoas. Não importa o que disser, não importa o que fizer, acreditarei em você. A vida já me mostrou que gastamos um tempo totalmente inútil desconfiando do comportamento de outras pessoas. Acredito na minha intuição, acredito que nada, nem ninguém entra em nossas vidas por acaso. E se elas não permanecerem, tampouco será acaso. Uma oportunidade imensa para praticar o desapego, não acha?

Estou pronta. Se não estiver, tudo bem. Ainda acho que amigos são tão (ou mais) preciosos do que trepadas carinhosas logo pela manhã. Embora goste muito disso também.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Raio X - Caminhada

Subo esta rua, desço as escadas, caminho por aquela avenida, subo outro morro, desço virando a esquina, passo em frente à padaria, compro um suco, passo em frente daquela casa legal, desço outra rua, subo novamente, cheguei! Percurso feito. Coragem. Atravessar a rua. E essa gente toda me encarando? E essa música horrível que não cessa? Eles não se cansam disso? Aqui é mais escuro que imaginava. Era o caminho que fazia à escola. Esses degraus parecem menores agora. Não é hora de chorar. Estou no meio da rua, que vergonha! Não, você não vai chorar. Você devia passar mais vezes por essa praça, há muitas lembranças da infância guardadas aqui. Nossa! Foi aqui que me jogaram ovo no meu aniversário. Bem aqui! Doze anos, acho que foi isso. Sexta-série. Vergonha! Ah! Aquele banco! Fabiano, meu primeiro beijo. Lindinho, tímido... A biblioteca que frequentava. Os livros emprestados com frequência, "Toda a Mafalda" era o favorito. No auge dos 12, 13 anos de idade eu tinha maturidade suficiente para entender o sarcasmo e o contexto político das tirinhas do Quino? Acho que sim... Ou não? Aqui havia aquela loja, cujo dono parecia ser um tarado. Lembro das roupas que namorávamos na vitrine antes ou após as aulas. Ele nos olhava, pedia para entrarmos para "experimentar" e ver se ficava bom. Tive nojo dele, desisti da compra. Deixei de gastar os R$20,00 que havia juntado por algum tempo. Não sei se esse terminal de ônibus me ajudaria muito naquela época, mas ficou imponente aqui. Só havia mato! Esse foi o final de semana de reencontros. Acho que vou passar na casa dele. SMS: "Está em casa?". Não respondeu. Deixa pra lá... Não vou interromper o ritmo. Mais forró, quanta gente feia reunida! O que faz essa mulherada acreditar que um cara com um carro lotado de caixas de som e um péssimo gosto musical poderá acrescentar à vida delas? É... talvez elas ainda sejam mais felizes que eu, pois não precisam pensar sobre isso. Tenho medo de atravessar essa ponte. Este cruzamento aqui é perigoso, ninguém respeita os pedestres. Já sonhei algumas vezes com esta ponte... Não foram bons sonhos. Agora é subir! Já assisti uma palestra nesta escola, quando tive a minha primeira sala de aula na Prefeitura. Faz algum tempo. Não lembro de nenhum nome dos que foram meus alunos naquele ano. Tinha aquela velha difícil, queixava-se constantemente de enxaqueca, pois, dizia ela, apanhou demais com o cabo de enxada do pai na cabeça, por isso não conseguia aprender "as letra", "juntar as letra"... Isso já faz tempo. Caminhávamos nestas ruas todas as tardes de domingo praticamente. Ela queria visitar aquele paquera, passar em frente ao portão dele. Víamos alguns colegas de classe voltando com as chuteiras amarradas nos calcanhares, sem camisa. Alguns pelos pubianos nasciam. Eu tinha vergonha de vê-los daquele jeito. Ah! Que calor! Padaria... nossa, que rápido! Farei isso mais vezes. Meu primo na esquina. Finge checar o celular para não acenar ou dar boa noite. Que ridículo! Enfim... acho que consigo repetir a dose amanhã. Às sete, já que acabou o horário de verão. Promessa de ano novo!"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O gato que tem medo de água fria

- Posso contar com você?
- Claro que sim!
- Que bom, sei que estou em falta ou não correspondendo, mas tem coisas que eu gosto em você.
- O que, por exemplo?
- Muita coisa. Falamos pessoalmente, ok? Só queria ser honesto com você e que não achasse que não ligo ou não me importo.
- Fique tranquilo! Você já me deu motivos suficientemente bons para mostrar que se importa.

Ainda não sei dizer de onde veio essa segurança toda!

Depois de algumas horas, reli esta sucessão de frases e percebi que não vai passar de um diálogo que precede um pé na bunda. Deve ser por isso que o estômago não parou de reclamar nesta última semana. ainda não sou capaz de entender essa minha dualidade: num momento manifesto-me intensa, segura e pronta para o que der e vier, noutro sou dor, náuseas e algo que não consigo compreender, digerir... Parece aquele velho ditado popular que fala do gato que tem medo de água fria. Como posso cindir meus sentimentos e colocá-los em lados tão opostos?

Vasculhei minha modesta coleção de músicas por aqui e não encontrei nenhum registro, letra ou melodia que possa abraçar esta sensação. Queria que essa alegria e espontaneidade me fossem favoráveis neste momento. Estou tentando, mas o exercício está pesado e o caminho para a auto-estima ainda me parece distante e confuso.

Esse hiato me assusta, me corrompe e faz entender que nada parece mudar de fato em nossas atitudes. O que muda é o jeito de olhar pra isso tudo. Mesmo assim, não enxergo nada!

Se ainda puder encaminhar um desejo às estrelas, este desejo se chamaria surpresa. Desejo ser surpreendida (por você e por mim). É possível?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Embrulho

Eu tinha certeza de que havia me despedido de você e que nada do que fizesse poderia me causar algo além de náuseas. Veja só como é a vida! Não importa quantas voltas a Terra possa dar em torno do Sol, teu sorriso sarcástico e olhar caído após dois ou três goles de whisky permanecerão os mesmos e eu... Eu ainda não sei o que fazer com esse embrulho pulsante no meu peito. Talvez você não o tenha rejeitado à toa, ele não deverá pertencer a outra pessoa que não seja eu mesma... Será?

Às vezes eu me atrevo a abrí-lo. Sabe como é, né? Se somarmos pessoas com ansiedade extrema e a falta de ocasiões para se presentear alguém, não hesito em desfazer essa fita. Sinto o quanto está vivo e íntegro os sentimentos alí reservados e torno a embrulhá-lo com todo cuidado; faço o possível para que o embrulho  latejante ainda tenha uma aparência dígna e atraente. 

Por algum motivo, ainda há um espaço vazio em nosso diálogo. Eu sorrio, você sorri... Eu peço um trago do teu cigarro, você pergunta como vão as coisas, mas não consegue ouvir o que tenho a dizer: "Eu estou muito bem! E vejo que você também está... Está bem acompanhado!". Admiro essa tua capacidade de se envolver tantas mulheres, gostaria de saber que gosto tem isso. É bom ser tão sedutor assim? 

Li hoje numa das primeiras frases de um livro que  "o problema não são os erros, o problema é o teu olhar. Os erros não se diferenciam dos acertos. Não têm sentido em si. O problema é você, que não é capaz de dar-lhes outros significados".*

Você não tem ideia do quanto isso fez sentido pra mim. Essa história de ressignificação dos objetos, situações e pessoas é muito mais honesto com nossas almas do que carregar o peso (por vezes mal-cheiroso) das nossas faltas. Já não me sinto culpada por ter me rebaixado à puta em tantas situações em que estivemos juntos. Entendi que depois de te ver tão belo (e levemente bêbado), não haverá motivos para sentir-me nauseada. Teu nome ou tua presença será sinônimo de superação, reencontro e - creia! - amor-próprio!

Artistas plásticos, fotógrafos, cineastas e historiadores entendem o significado do ângulo, dos planos, das cores e formas, da profundidade e consistência, do foco ou dos recortes...

Hoje entendi que meu melhor presente, minha melhor intenção, meus maiores medos não pertencerão a mais ninguém antes que eu os reconheça ou ressignifique como meus. Antes de ser de qualquer outro alguém. Basta não esquecer do básico: o OLHAR.

* SAAVEDRA, Carola. Paisagem com dromedário. São Paulo: Cia. das Letras, p. 12 


domingo, 29 de janeiro de 2012

Boa noite e boa sorte!

- Sou tua amiga. Você sabe que pode contar comigo, né?
- Hum...
- Então, soube de alguns comentários ao seu respeito. Mas é fofoca, com certeza.
- O que foi dessa vez?
- Ah. Te conheço, você não seria capaz...
- Então desembucha logo. O que estão falando?
- Ah. Você não vai contar pra ninguém?
- Porra! Estão falando de mim, não sei o que é, e com certeza é para me denegrir e você acha que eu vou ficar sabendo disso e não vou tomar providências?
- Ah. Então não vou falar nada. Melhor assim. Você fica brava por pouca coisa.
- Entendi. Então você acaba de me mostrar que não é "amiga". Não posso contar com você pra nada. Se veio aqui passar adiante a "fofoca" - que já não me interessa mais - dê o fora!
- Creeeedo! Não seja tão radical! Não quis ofendê-la!
- Pois então... Ofensas à parte, acabaste de sair do meu caminho. Boa noite e boa sorte!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Já fui surfista e hoje tenho medo do mar

Quando não se entende como encaramos o fim, ou seja, como fazemos para começar outra coisa que seja depois do fim, nosso desejo imediato é repensar o começo. Foram tantos finais! Tantas histórias que de começo, nada tiveram. De fato, só existiram em minha cabeça. Todas elas começaram como eu desejava e terminaram sem que percebesse. Ainda guardo um pedaço, um cheiro, um som... até o calor do sol sobre a pele... Isso ainda me faz recordar, mas não me faz viver.

Certo dia me deram um exemplo. O  do surfista que amarra suas pranchas ao tornozelo, enfrenta as ondas, toma belos caldos, perde sua prancha, mas aquela fita amarrada ao tornozelo permanece. Assim ocorre sucessivamente até que seus pés se encontrem lotados de fitas sem utilidade, impossibilitando-o de fazer qualquer manobra mais ágil. Os restos das pranchas sobrepostas e apertadas aos tornozelos impedem o laçar de outras novas. O surfista resolve então se aposentar. Senta-se em frente ao mar, emociona-se com as ondas, com a agilidade que outros ex-companheiros ao se divertem e dominarem a força da gravidade, das águas... Mas os restos das pranchas presas aos seus pés o impedem de caminhar, de voltar ao mar. Ele tem medo de retirar o que objetivamente não serve mais. Tem medo de abrir mão das lembranças, das ondas, da adrenalina que foi arriscar-se. Suas pranchas, apenas o que sobrou de suas pranchas, são testemunhas de suas vitórias e fracassos. O que está preso em seus pés são os únicos que podem depor toda a verdade. Tirar isso dele, seria abrir espaço para o devaneio, para a fantasia. Quanta bobagem! Na verdade, do que esse surfista tem mesmo medo é de encarar a própria pele sob tantos farrapos. Há feridas! E elas não foram causadas pelos acidentes, pelo rompimento, pela perda das pranchas ou pelo próprio mar. Feridas só persistem porque foram falsamente curadas. Foram encobertas!

Perguntei a quem me deu este exemplo do surfista (eu jamais pensaria numa coisa assim!), como poderia começar a cortar esses laços, estes apêndices que não fazem outra além de provocar dor e paralisia. Não obtive uma resposta concreta. Meu desejo sincero neste momento é o de olhar nos olhos de cada um que se foi e pedir perdão. Perdão por ter falhado, por não ser o que esperavam que eu fosse. Mas ainda acho que isso não é o suficiente. Sei que é necessário também perdoar. Há tantos nós que ainda me sufocam, me paralisam. Não sei por onde começar. Também não sei se estou pronta para me ver despida de sofrimento.
Se pensar no exemplo do surfista, parece que já me esqueci da sensação de brincar no mar, de me sentir envolta, embalada e acariciada por ele. Há um peso e eu não sei como esvaziá-lo.