sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Octoalegoria

Soprou teu convite oito vezes e eu só aceitei o último. Estava em luto nas outras sete tentativas: estava surda! O oitavo foi diferente. Ao acordar de um sono profundo, no dia 8 de março, um lembrete: "Seque os olhos!". E assim o fiz, paulatinamente. Desde então, o exercício diário era o de regar pensamentos que floresciam, dar cor aos desejos - antes vestidos de negro - e movimento a um borboleteio que jamais ousara dançar.

Dar-me por satisfeita com o convite não era o bastante. Havia a necessidade de me aproximar e entender as razões daquele anfitrião insistente - por vezes arrogante -, mas caminhava na Praça da Sé. Entre solfejos, juntei todos os trapos de coragem, costurei-os com fios de esperança e fui para a sua festa vestida de colcha de retalhos, nada mais. A mistura de sons e sotaques fazia daquela festa  atemporânea

Enfeitada de mim 
e sem ilusão para desfigurar,
brinquei de roda fingindo

Sendo esta mais uma alegoria da vida, ela não deve ser perfeita: havia um pingo sem i. A  alegria vivida naquele ambiente era ameaçada pelo embargo dos surdos, quase vi a morte das noites de loa ao luar. Assisti ao olhar cinza do dono da festa. Logo agora que passei a acreditar que amor não deveria dormir

Por sorte, aquele anfitrião adora uma farra e só precisava se recolher brevemente. A festa não acabou e não acabará enquanto ele deixar fluir novas cores de seu bandolim. Se hoje estou aqui contando tudo isso é porque eu cri, por ele crer.

Um comentário:

  1. Achei muito bom o texto.
    Gostei demais.
    Pude sentir muita inspiração e muitos aromas e mistérios no ar.
    Parabéns!

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