segunda-feira, 24 de maio de 2010

Gutierry, o santista.

Gutierry. Esse nome é famoso na escola em que trabalho. Uma criança que está matriculada desde a primeira série nesta mesma escola e, aos 12 anos de idade, chegou à 5.Série. Passou por todo o tipo de reforço escolar, frequentou as classes de PIC (Projeto Intensivo de Ciclo) e foi aprovado automaticamente mesmo sem saber ler e escrever fluentemente.


Reconhece as letras de seu nome, e se não estiver ocupado "tocando o terror" na sala de aula, copia uma palavra ou duas da lousa (isso quando reconhece as letras cursivas!).


Tensão. Que sentido faz a uma criança neste estágio de desenvolvimento compreender "A Importância dos Vestígios Materiais para o estudo da História"? Diante de uma classe com 40 alunos, com idade aproximada de 10, 12 anos. Como dar atenção à esse garoto?


Soube, por alto do histórico familiar dele: é órfão de pai, a mãe descobriu que possui o vírus HIV e vem usado todo o tipo de drogas desde então. Sua "madrinha", tem uma espécie de guarda sobre ele, mas à distância. É a única pessoa com quem ele pode contar.

Como se não bastasse tanta desgraça para uma criança, este garoto só pode ter algum propósito muito especial nesta vida, pois já driblou a morte em dois graves acidentes: primeiro, um furo com uma barra de metal na cabeça e depois um atropelamento que lhe custou o baço.

Neste último sábado, preferi abandonar as apostilas e propor um trabalho em grupo. São poucos os alunos que frequentam as aulas de reposição - impostas pela SEE, diante da greve ocorrida no início do deste ano letivo -, logo, fazer atividades que despertassem o lúdico, organização e criatividade eram mais que bem vindas não só para mim, quanto para os alunos.


Gutierry, para minha surpresa, era o aluno que mais participava no grupo de meninos. Eles decidiram escrever um "Jornal do Futebol". Observei de longe suas argumentações, vi que sabia também de cor o resultado dos jogos da última rodada e desejava falar sobre isso. Por alguma razão, seus colegas não aceitavam suas ideias e, depois de tanto insistir, solicitou-me uma folha de papel cartão para que fizesse sozinho todo o trabalho.


Expliquei que não era assim que ele resolveria as coisas, que era muito trabalho para uma pessoa realizar em apenas uma aula. Mas aquele garoto me convenceu com um largo sorriso e muita motivação. Aceitei depois de ver todos os meus argumentos pedagógicos e autoritários se esgotarem. Melhor assim.

Sentei-me ao lado dele para organizarmos o espaço que seria utilizado para a escrita da notícia e, também para a ilustração. Foi clara a opção dele pelo desenho do campo de futebol: os 11 jogadores de cada time, o círculo no meio de campo perfeito utilizando o decalque de um corretivo líquido... Mas, e a manchete? Qual era a notícia? Quem estava jogando? Qual foi o resultado desse jogo?


Nossa aula já estava acabando e precisei pressionar. Algo escrito deveria sair dalí. E saiu: "S A T O x C U R I T A" (leia-se Santos X Corinthians).


Pela primeira vez depois de dois anos senti-me satisfeita em estar novamente com meus alunos em sala de aula. A motivação e a luta daquele garoto para escrever aquelas palavras tão curtas é proporcional ao meu esforço diário: minhas intenções podem ser enormes, todavia, os resultados são deficientes, quase efêmeros.

Agora fica a expectativa: será que no próximo sábado ele voltará com tamanha motivação para concluir o seu trabalho?

terça-feira, 18 de maio de 2010

sábado, 15 de maio de 2010

Da fome

"A fome insatisfeita que senti era de ti.
Fome do instinto que não foi ouvido"
Miguel Torga

É de fome essa dor constante em teu ventre
É desejo de fazer daquela carne a tua
Sobra-te somente o sal que escorre sobre a face

Receita:
Tempere um sorriso,
Adoça-o em lembranças
Beije, em silêncio, o ar

Soluço vago
Orações ao vento
Instinto civilizado
Sono resgatado

E a fome não passa...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Receita para morrer mais cedo

Você tem alguma ideia do que é matar um desejo? Sacrificar uma necessidade? Prorrogar - sabe lá Deus até quando - um prazer?

Sabe por acaso quantas rugas nascem ou células envelhecem precocemente quando se faz algo contra a sua vontade?

Por acaso se colocou no papel de uma mulher confusa diante de tantas questões sem resposta alguma?

Quem disse que acrescentar 15, 20 anos de caminhada pode fazer alguém afirmar com veemência "As coisas são como são"?.

Encontro-me de ponta cabeça, de mãos atadas e com uma mordaça invisível.

De que adianta valorizar a chamada "Arte" se, novamente, a realidade bate em meu rosto sem piedade?

Não há poesia que sobreviva às tantas reticências intercaladas por interrogações.

Não há AMOR próprio quando já nem sei mais o que é olhar para o espelho.

domingo, 9 de maio de 2010

A Prece para os Novos Tempos

A História nos conta que em algum momento as almas podem mudar o seu curso desde que a consciência esteja habilitada a mergulhar por caminhos desconhecidos.
Há um inevitável campo magnético que nos empurra para a vida cíclica. Repetir os passos e estratégias anteriores será um grande erro.
Há também uma força incompreensível que nos atrai àquela espiral. Para cada alma existe um valor, um sentimento, uma motivação. Negar é fatal, absorver é doloroso e preciso.
Não passa de um grande paradoxo. Nascer em um corpo frágil, com alma fértil e coração sob constante alerta. A mente? A mente está cega e surda.
Como ser consciente num corpo cuja mente está em descompasso?
Em novos tempos, as palavras também mudam, se reconfiguram. Orações são vistas com pieguice e fraqueza. Contudo, o seu sentido jamais será esvaziado. A partir de agora, considere suas preces sob nova roupagem. Chame-as de Conexões.
São tantos os links disponiveis. São inúmeras tentativas falhas ou vazias em seu conteúdo, mas há de se tentar um recurso de busca ainda mais apurado. O Instinto.
Desabilite suas vacinas e interaja com o agressor. Reconheça seus mecanismos de funcionamento, sofra as alterações necessárias, mas não se esqueça de que o suposto agressor também carregará consigo uma parte do que é seu.
Qualquer corpo pede equilíbrio dos elementos vitais para permanecer sólido. Reaja!
Não esqueça de que para avançar em direção à espiral, jamais deixará suas conexões com o passado inerte.
Aprenda com os erros e fuja da gravidade!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quem responde isso?

Sufocada entre os cobertores. Acordando vez e outra com as comemorações da semi-final de um campeonato qualquer de futebol, cerro os olhos na esperança de que a mente também descanse.

Mas a mente não descansa! Que pedido absurdo é esse?

Enquanto os vizinhos gritam e insultam uns aos outros na ocasião de um gol, atrapalham uma frase, uma comparação, uma ação provável. Teoricamente, deveria estar dormindo. Meus olhos estão fechados!

Exploro o segundo travesseiro, o cheiro bom de amaciante na roupa de cama que acaba de ser trocada. Eu só quero que ele me responda: "Onde está a autonomia?".

Aqueles olhos nunca me responderão. Às vezes penso que aquelas mãos jamais tocarão novamente a minha face. Quiçá, apontarão em minha direção...

Que conclusões posso ter depois de um diálogo entre um mudo e um cego?

Uma semana a mais, uma semana a menos... NÃO TENHO RESPOSTA ALGUMA!

Aquela ampulheta que deixa correr sua areia de um lado a outro de maneira sedutora e hipnotizante esconde o velho segredo do tempo.

Todos querem saber do segredo, mas ninguém aceita ouvi-lo. Sabe por quê? Ele também nos exige resposta a uma pergunta muito simples: "O que você anda fazendo com o seu tempo?".