Iniciarei uma nova campanha em favor de mim mesma: cada vez que pensar em ouvir tua voz não recorrerei mais ao celular para mandar mensagens ou fazer chamadas que dificilmente serão atendidas. Em vez disso, procurarei um poema para ler. Aquela pilha de livros que aguarda pelo tempo que eu esperava tanto ter, me agradecerá por isto.
Sou consciente de que não é possível retirar tudo o que não me faz bem e jogar fora de uma só vez. Temos certeza de que esse vazio provocado pela ruptura seja ainda mais dolorido. Sabemos que é tempo de expandir-nos, de buscarmos novos caminhos e pensarmos que não é possível reviver ou nos prender às lembranças torpes de nossos dias mais felizes.
Tuas palavras serão substituídas por outras, de outras pessoas. Talvez ainda mais criativas e intensas que as tuas... Assim espero. Se não for assim, compro um livro de piadas, pois sei que você não tem o menor senso de humor.
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domingo, 25 de dezembro de 2011
Acordo literário
domingo, 11 de setembro de 2011
Aparição amorosa
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nosso corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis, ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Carlos Drummond de Andrade
como em outros tempos nosso corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis, ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 15 de maio de 2011
Quando não defino, pego emprestado.
"Ternura" - - Plamen Temelkov
"Eu não te pergunto nada, apenas desejo tanto você que sorrio como se não
me importasse com sua existência."
domingo, 31 de outubro de 2010
Ciência da Caverna
Os gritos dentro de um espaço sem ar
não circulam e não reverberam.
Física pura!
Se ao menos tivesse coragem para abrir uma dessas janelas.
Se a covardia não impedisse de gritar o que está ausente.
Quem dirá a ponta dos dedos macios que acariciam o vácuo?
Projetam-se sombras, mas as palavras não.
Dissolução.
Deste contorno de face,
destas rugas aparentes e olhar cintilante...
sombra alguma fará diferença.
Permanece em clausura por conta própria.
Dieta composta de memória e sal: sorriso e lágrima.
Química pura!
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Adeus, Ogum.
Chegou vestido de psicodelia autodefensiva
Era dono de olhar pontiagudo
Sorriso sarcástico
Parceiro para conversas sem nexo
fez-se entender rapidamente: "Estou de passagem!"
Desejei (confesso) fazê-lo mudar de ideia...
Ele partiu.
o diálogo obtuso,
o palavrão sussurrado,
o espelho quebrado,
o manequim despido...
Aqui permanecem
as flores
as dores
as memórias
as fotografias
Missão cumprida, cavalheiro!
A beleza emoldurada através de teus olhos
Finalmente é revelada por tua lâmina.
Para ouvir: São Jorge de Kiko Dinucci & Juçara Marçal
Era dono de olhar pontiagudo
Sorriso sarcástico
Parceiro para conversas sem nexo
fez-se entender rapidamente: "Estou de passagem!"
Desejei (confesso) fazê-lo mudar de ideia...
Ele partiu.
o diálogo obtuso,
o palavrão sussurrado,
o espelho quebrado,
o manequim despido...
Aqui permanecem
as flores
as dores
as memórias
as fotografias
Missão cumprida, cavalheiro!
A beleza emoldurada através de teus olhos
Finalmente é revelada por tua lâmina.
Para ouvir: São Jorge de Kiko Dinucci & Juçara Marçal
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
3 em 1
Insone
Os pensamentos calados a razão
[das noites insones
Os olhares enviesados motivo para a fantasia
Os afagos únicos não alimentam mais o vício
Os abraços ternos razão da volátil alegria
Vício
Lamentar a dor da ausência é o maior vício
A ausência é a presença
Memória farta é
Realidade e fantasia dançam no mesmo compasso
Visão
Mãos e tato
Lábios e sorriso infantil
Cabelos curtos...
Esconderijo de pensamentos rebeldes
Os pensamentos calados a razão
[das noites insones
Os olhares enviesados motivo para a fantasia
Os afagos únicos não alimentam mais o vício
Os abraços ternos razão da volátil alegria
Vício
Lamentar a dor da ausência é o maior vício
A ausência é a presença
Memória farta é
Realidade e fantasia dançam no mesmo compasso
Visão
Mãos e tato
Lábios e sorriso infantil
Cabelos curtos...
Esconderijo de pensamentos rebeldes
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Saudade
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Encerrando o ciclo
Encerra-se o ciclo. Meus reversos ainda reverberam e as "cartas que escrevo para quem não vai ler" ainda latejam. Já não é mais um latejar de dor, é um latejar breve, íntimo e pacificador:
" É impossível agir com racionalidade quando o medo do desconhecido impera. Mais impossível ainda é agir com lógica dentro de um universo que nunca se ousou pisar; comecemos pelos universos que não se revelam num olhar, no reflexo do espelho.
Reclusão, interação, dor, incompreensão... Não há como materializar os sonhos quando nem os pés estão em terra firme.
Parece-me que implorar a paciência e a compreensão alheias são o mesmo que despedir-se de alguém muito querido. Os alheios vão!"
Ficar, esbravejar, chorar... culpar.
O sol se põe.
A noite é traiçoeira e, por vezes, boa conselheira:
'Seque tuas lágrimas, não lamente, descanse
Não peça paciência à outrem.
Você a tem consigo?'
O Sol retorna no horizonte
Siga as pegadas breves
Daquele que partiu
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Saudadear
Num deslize, num lampejo de solidão é impossível não me lembrar de teus dedos percorrendo a pele e tua face estampando um tímido sorriso. Tão especial e único. Único! Bebo, conscientemente, na fonte da saudade com as letras do teu nome em relevo. Esta marca é o meu instrumento e com ele canto o único verbo que é meu: "saudadear".
domingo, 1 de agosto de 2010
Escrevo cartas para quem não vai ler - Parte II
Já conheceu alguém com uma letra estampada na testa? Eu já! Aliás, quem nunca viu é porque ainda não olhou bem para o espelho. Sempre usamos estas letras de escudo ou, usam-nas como rótulos. Já que não posso livrar-me dela, somarei outras letras. Apenas uma não dará conta de revelar o que eu ainda nem sei o que existe embaixo dessa carne.
***
O som... a mistura, estranheza e curiosidade.
- "Quem será?"
- "Este 'quem' é múltiplo!"
- Será que, em uma destas parcelas, há a paciência? Afinal, para contar histórias, preciso de tempo para internaliza-las.
- Que história? Está louca? Volte e recolha-se. Não está pronta...
***
O som... a mistura, estranheza e curiosidade.
- "Quem será?"
- "Este 'quem' é múltiplo!"
- Será que, em uma destas parcelas, há a paciência? Afinal, para contar histórias, preciso de tempo para internaliza-las.
- Que história? Está louca? Volte e recolha-se. Não está pronta...
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
Barbas
De tão próxima, percebi que estava com a barba mal feita. Pude enxergar um dos pêlos cortados pela lâmina ainda preso sobre aquela face. "Devia ter feito com pressa", pensei. Subitamente, controlei as mãos e meus pensamentos vadios. Não era só um favor em livrar a pele de um fio; era também o favor de não tocar novamente naquele rosto. Possuo memória visual e tátil, não conseguiria encará-lo depois deste gesto, supostamente inofensivo.
Após despedir-me, vi em meu celular uma chamada perdida. Era daquele que não faz questão de manter-se barbeado. Aliás, usa uma máscara densa sobre a face; dá um toque másculo e o protege de sua sensibilidade praticamente incurável. Não é da pele que me refiro, a sensibilidade sob esta máscara é transeunte e inalienável. Sorte dele de se proteger desta forma opulenta. Sorte minha de tê-lo visto sem máscara e o enxergar assim, sempre. Azar o nosso de não usarmos isso em nosso favor.
domingo, 21 de março de 2010
Domingo
Acordei hoje com aquela sensação boa que os sonhos deixam. Busquei uma posição confortável entre os lençóis e travesseiros para que pudesse lembrar do enredo, das personagens e dos diálogos para que esse prazer se prolongasse por mais alguns minutos.
Permaneci estática, vasculhei a memória mas não encontrei nada. Quando desejamos prorrogar o início do dia não se desiste tão fácil: optei pelas cenas reais.
Um intenso monólogo, olhares furtivos, ouvidos atentos aos instrumentos que se revezavam, mãos que dançavam e descobriam timidamente o palco dos corpos.
Sem ensaio nem coreografia, apenas dois expectadores.
Este prazer desfrutado com tamanha intensidade foi tão etéreo que já se confunde aos sonhos de uma manhã de domingo que não quer começar.
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