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domingo, 11 de setembro de 2011

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava 
só trazia o perfil da meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.


Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era divididas em metades
diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a verdade mais bela.
Nenhuma das duas era inteiramente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme 
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um exercício de musicoterapia... (Ser estranho!)

O Náufrago andrógino
    1. Grão de Mar – Maria Bethânia
      2.   Imitação – Juçara Marçal e Kiko Dinucci
      3.   Papel Sulfite – Juçara Marçal e Kiko Dinucci
      4.   Amor de Conuco – Michel Camilo, Tomatito & Juan Luis Guerra
      5.   Ar – Nô Stopa
      6.   Wait For Me – Moby
      7.    Mil Pasos – Soha
      8.   Parao – Ruben Blades

Um exercício de musicoterapia... (Árvore)

A árvore que se deixa usurpar,
 mas (ainda) quer dar frutos:

       1.    La Edad del Cielo – Jorge Drexler
       2.    Panapaná - Galldino
       3.    Canto Triste – Nouvelle Cuisine
       4.     Sonho de uma Flauta – O Teatro Mágico

Um exercício de musicoterapia... (Casa)

Embaixo do telhado tem...
1.       
        1. Esconderijo – Ana Cañas
        2.  Why Does My Heart Feel so Bad – Moby
        3.   Casa em Construção – Cassio (Catito) Carvalho
        4.   A Casa é Sua – Arnaldo Antunes

domingo, 31 de outubro de 2010

Ciência da Caverna

Os gritos dentro de um espaço sem ar
não circulam e não reverberam. 
Física pura! 

Se ao menos tivesse coragem para abrir uma dessas janelas.
Se a covardia não impedisse de gritar o que está ausente. 
Quem dirá a ponta dos dedos macios que acariciam o vácuo? 
Projetam-se sombras, mas as palavras não. 
Dissolução.

Deste contorno de face, 
destas rugas aparentes e olhar cintilante... 
sombra alguma fará diferença. 

Permanece em clausura por conta própria. 
Dieta composta de memória e sal: sorriso e lágrima. 
Química pura! 





segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma crônica sobre Business e Educação Infantil

Neste último sábado, encontrei-me com um amigo músico que não via há muito tempo. Este encontro foi singular porque estávamos em posições bem inversas às de quando nos conhecemos há três ou quatro anos: ele compartilhando comigo a felicidade de se tornar professor de música em uma escola de Educação Infantil Bilingue e eu, negociando a viabilidade de um show com um dono de bar na Vila Madalena.

Imaginem só! Aquele "homão" sorrindo ao falar de suas experiências com os pequenos e o quanto se sentia privilegiado em poder descobrir, através dos olhos delas, um outro modo de enxergar a vida.

- "Canela, é muito engraçado isso! Você convive com as crianças e elas te ensinam um outro modo de nos relacionar com o mundo. Estou feliz!" - disse ele.

Enquanto o dono do estabelecimento foi atender um de seus funcionários, minha mente transitou entre as rodas de conversa e trabalho pela manhã, entre as atividades individuais, nas orientações para resolver um conflito na hora do parque e até (acreditem!) nas discussões entre os professores sobre qual desafio oferecer às crianças para que despertassem o interesse pela escrita ou mesmo ouvissem, minimamente, às orientações dos adultos.

Antes de sair do local (irritada porque não conseguia criar um diálogo consistente  e fechar negócio com o empresário) dei um abraço no congueiro. Um dos gestos mais significativos que pude reaprender na Educação Infantil, na tentativa de agradecê-lo por me lembrar de um tempo em que as regras de um jogo ou "combinados" eram bem claros e deveriam ser respeitados até o final.

Todos passaram pela infância, mas poucos tiveram o privilégio de VIVÊ-LA mais do que uma vez!

sábado, 26 de junho de 2010

Revendo escolhas - II

Acalmem-se, deixe-me explicar!

Não conhecia o significado de efêmero porque o prazer que se obtêm com a média de setecentos alunos/ano não corresponde às horas perdidas corrigindo avaliações.

Quando aluna, pensava que entregar uma avaliação em branco era o ápice da transgressão - jamais arriscaria tal façanha! Hoje, agradeço estes infelizes. Não serei agredida com informações sem nexo, frases mal formuladas, ortografia e caligrafia inexistentes. Afirmo que há provas em que preferiria receber em braile!

As controvérsias surgem quando, ao bater o sinal para o intervalo, alguns alunos dizem: "Mas já? Tava tão legal!"; "Nossa, professora! Eu nunca tinha pensado nisso!". Ok, confesso. Isso acontece uma vez por semestre, mas dá um gostinho mágico àquele que tenta segurar na garganta seus incontáveis pimpolhos.

Já me revoltei com um vendedor de "microfones da Madona" com um falante preso na cintura - segundo ele, era um produto exclusivo para professores, nas cores preto, branco e rosa.

Esbravejei sem titubear: "Quem disse que, para conquistar o respeito dos alunos, eu deveria aumentar o volume de minha voz?". O resultado? Estou com dois nódulos nas cordas vocais, não canto mais nem debaixo do chuveiro e sei que guardei o cartão daquele vendedor em algum lugar.

Sobre o pioneirismo? O significado desta palavra me vem ao paladar todos os dias. Não há nenhum artista assumido em minha família. Seguimos todos a mesma corrente operária, executamos serviços, vendemos nossas horas e não pensamos muito sobre isso para não enlouquecer.

Sinto que, neste ponto, eu consegui romper com as tradições.

Enlouqueci!
Chutei o balde!
Larguei tudo e saí correndo!

Corri e estou tão longe do que me trouxe aqui... É estranho voltar para casa. Já não me reconheço diante dos outros, muito menos em frente ao espelho. Falo sozinha e, às vezes, isso é engraçado. Até ouso expor algumas coisas que penso em palavras. Se alguém quiser ler, ótimo.

Pioneira serei, quando responder alguns dos meus enígmas nauseantes. Até as enumerei para ficar mais didático:

1° De que forma pendurarei meu avental sujo de pó de giz?
2° Será que estou velha demais para usar sapatilhas de dança pela primeira vez?
3° Há alguém nesse mundo que viva disso, somente?
4° Assumir, publicamente, minhas (des)organizadas hipóteses fará de mim uma pessoa menos confiável, insegura ou fraca?


Quando finalmente resolver estas (e outras) questões, desejo ter a certeza de que nenhuma decisão profissional tomada aos 18 anos será totalmente irreversível.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Gutierry, o santista.

Gutierry. Esse nome é famoso na escola em que trabalho. Uma criança que está matriculada desde a primeira série nesta mesma escola e, aos 12 anos de idade, chegou à 5.Série. Passou por todo o tipo de reforço escolar, frequentou as classes de PIC (Projeto Intensivo de Ciclo) e foi aprovado automaticamente mesmo sem saber ler e escrever fluentemente.


Reconhece as letras de seu nome, e se não estiver ocupado "tocando o terror" na sala de aula, copia uma palavra ou duas da lousa (isso quando reconhece as letras cursivas!).


Tensão. Que sentido faz a uma criança neste estágio de desenvolvimento compreender "A Importância dos Vestígios Materiais para o estudo da História"? Diante de uma classe com 40 alunos, com idade aproximada de 10, 12 anos. Como dar atenção à esse garoto?


Soube, por alto do histórico familiar dele: é órfão de pai, a mãe descobriu que possui o vírus HIV e vem usado todo o tipo de drogas desde então. Sua "madrinha", tem uma espécie de guarda sobre ele, mas à distância. É a única pessoa com quem ele pode contar.

Como se não bastasse tanta desgraça para uma criança, este garoto só pode ter algum propósito muito especial nesta vida, pois já driblou a morte em dois graves acidentes: primeiro, um furo com uma barra de metal na cabeça e depois um atropelamento que lhe custou o baço.

Neste último sábado, preferi abandonar as apostilas e propor um trabalho em grupo. São poucos os alunos que frequentam as aulas de reposição - impostas pela SEE, diante da greve ocorrida no início do deste ano letivo -, logo, fazer atividades que despertassem o lúdico, organização e criatividade eram mais que bem vindas não só para mim, quanto para os alunos.


Gutierry, para minha surpresa, era o aluno que mais participava no grupo de meninos. Eles decidiram escrever um "Jornal do Futebol". Observei de longe suas argumentações, vi que sabia também de cor o resultado dos jogos da última rodada e desejava falar sobre isso. Por alguma razão, seus colegas não aceitavam suas ideias e, depois de tanto insistir, solicitou-me uma folha de papel cartão para que fizesse sozinho todo o trabalho.


Expliquei que não era assim que ele resolveria as coisas, que era muito trabalho para uma pessoa realizar em apenas uma aula. Mas aquele garoto me convenceu com um largo sorriso e muita motivação. Aceitei depois de ver todos os meus argumentos pedagógicos e autoritários se esgotarem. Melhor assim.

Sentei-me ao lado dele para organizarmos o espaço que seria utilizado para a escrita da notícia e, também para a ilustração. Foi clara a opção dele pelo desenho do campo de futebol: os 11 jogadores de cada time, o círculo no meio de campo perfeito utilizando o decalque de um corretivo líquido... Mas, e a manchete? Qual era a notícia? Quem estava jogando? Qual foi o resultado desse jogo?


Nossa aula já estava acabando e precisei pressionar. Algo escrito deveria sair dalí. E saiu: "S A T O x C U R I T A" (leia-se Santos X Corinthians).


Pela primeira vez depois de dois anos senti-me satisfeita em estar novamente com meus alunos em sala de aula. A motivação e a luta daquele garoto para escrever aquelas palavras tão curtas é proporcional ao meu esforço diário: minhas intenções podem ser enormes, todavia, os resultados são deficientes, quase efêmeros.

Agora fica a expectativa: será que no próximo sábado ele voltará com tamanha motivação para concluir o seu trabalho?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Antes

Antes de acreditar na morte dos sonhos, fui coveira do meu próprio tesouro.

Antes de correr descalça sob a chuva, desfigurada pelo pranto que, misteriosamente, não se mistura às gotas frias, passei meu melhor perfume e agradeci a mim mesma por tal atrevimento.

Antes de acreditar em tuas verdades e feitos, preferi omitir e fingir não acreditar nas mentiras que crio.

Antes de conhecer os meus instintos, tornei-me a presa dos instintos alheios. Vítima, não! Caça, alimento... Desenvolvi, paulatinamente, minha defesa. Logo parto para o ataque!

Antes de acreditar em opiniões devastadoras, tapei os ouvidos e abri meus olhos. Cores vibrantes e cheiros que abriram o meu apetite instantaneamente foram grandes conselheiros.

Antes de perdoar instantaneamente, aprendi a calcular o tamanho da dor que ainda existia em mim.

Antes de acreditar em finais felizes, quero saber como se faz "inícios pacíficos" e "meios" recheados de entrega, descoberta e fascínio mútuo.