Nenhum coração é incólume.
Se as frestas que você enxerga no meu
despertaram-te o desejo pela conquista
E se o trabalho de escavar esta aparente rocha
lhe parece demasiadamente emocionante,
Antes me permitir a tal jogo,
responda-me à uma questão somente:
"O que fará quando o objetivo for alcançado?"
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terça-feira, 22 de novembro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Você: espelho
Descobri que nunca soube falar de você. É só revisar a quantidade de textos que comecei a escrever e jamais consegui encerrar nenhum deles.
Sustento algumas teorias sobre isso; uma delas está baseada nesse medo indescritível de expor todos os nossos erros... Ainda não sei o que fazer com eles. Quer dizer, eu sei: quero começar outra vez e acertar o passo. Que seja somente minhas cartas e eu. Já será um bom recomeço.
Descobri que pessoas como você deixam marcas profundas nos corações que permitem sua entrada. Tentei fugir para me proteger, mas fiquei porque sou viciada nessa dor ilusória das paixões sem destino. O erro foi meu, não seu.
Descobri que no lugar dos culpados, deve existir o perdão. O tiro saiu pela culatra, não deveria passar de encantamento. Somos responsáveis pelas consequências dos nossos atos, sendo eles positivos ou não.
Descobri que nunca te contei sobre um monstro que vive embaixo da minha cama. Ele se chama Abandono. Nasceu quando era muito pequena e mantemos uma relação bem delicada. Preciso consultar semanalmente um especialista para que eu possa me aproximar deste bicho horroroso. Sei que esta relação é um tanto complexa, mas fico feliz em entender o que me causa tanto pavor. Para falar a verdade, sonho com o dia em que possamos nos entender e ele procurar outro lugar pra viver. Já tenho até um nome para o que deverá substituí-lo: Acolhimento.
Descobri que, se não fosse por você, jamais teria buscado ajuda para expulsar este monstro, não saberia o caminho do auto-perdão, não entenderia o por que de tantas mágoas e também de não conseguir falar de você, pois não passa de uma projeção do que sou...
Você é uma outra história que (ainda) desejo muito conhecer.
domingo, 11 de setembro de 2011
O minuto depois
Nudez, último véu da alma
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
Pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois de êxtase.
Carlos Drummond de Andrade
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.
Ai de nós, mendigos famintos:
Pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois de êxtase.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Antes de passar
Foto: Fábio Stachi
- Confesso que tenho me preocupado ultimamente com você. Sabemos de nossa situação e você, principalmente, da minha. Não tenho nada a oferecer, não sou neste momento a pessoa mais indicada para te satisfazer, muito menos te acompanhar. Sinto dizer isso, sinto em não corresponder. E você é preciosa demais em minha vida para fazer-te sofrer. Fique atenta, proteja-se... não sofra por mim.
A garota abriu um largo sorriso. Suspirou, olhou algum tempo para aquele jardim de inverno, desejou saltitar sobre algumas pedras colocadas cuidadosamente como em um caminho sinuoso. Pediu para que o moço encanado sentasse confortavelmente no sofá, estendesse seus braços, tirasse os sapatos e fechasse os olhos. Ele o fez, mesmo achando aquilo tudo muito patético. A garota se aproximou do teu rosto, deu-lhe um beijo na testa, correu a ponta de seu dedo indicador em toda a face dele. Sentiu vontade de chorar, talvez esta fosse a última vez que pudesse tateá-la. Voltou seu olhar para as mãos repousadas sobre os joelhos e, finalmente, descreveu sem medo o que sentia naquele exato momento:
- Não tenha medo do que eu venha sentir ou sofrer. Tudo o que fiz até agora foram somente escolhas. Escolhi sentir e ler, com minhas mãos, a tua pele e pude enxergar tudo o que um dia esqueci de ser: sensível, terna, amável... sonhadora! Não chamo isso de amor ou qualquer coisa do gênero. Carrego comigo a sensação do reencontro. Estar aqui, diante dos teus olhos é um simultâneo reencontro - comigo e contigo. É um caminhar descalço sobre a grama ainda úmida pelo orvalho. É sentar-se na beira de um lago cristalino e me embreagar de paz. É poder tirar o sapato apertado depois de uma festa e deixar os pés em água morna por alguns minutos. Tocar teu corpo, ouvir o som de tua voz, rir de tuas piadas bobas... Finalmente compreendi! Estou digerindo, vivendo e me permitindo ser feliz enquanto estou aqui. Quando passar daquela porta, não sei.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
sábado, 8 de janeiro de 2011
Embora distante...
Foto: Emme
Pareço-me perdida? É apenas um disfarce.
Ainda sonho com o dia em que não precisarei
mais esconder de mim mesma todos os sonhos que,
mais esconder de mim mesma todos os sonhos que,
indiretamente, fazem-me caminhar.
Passos curtos, lentos, descalços, mas sempre na mesma direção.
Distância é algo muito relativo quando se tem, dentro de si, o mundo inteiro.
sábado, 14 de agosto de 2010
Sabores
Certa vez, perguntaram-me o que realmente queria.
Respondi que desejava sabor. Mais sabor!
Fujo o quanto posso do vício amargo.
A desconfiança, às vezes, nos obriga a sermos azedos.
Cansei-me do sal do aperitivo.
Pimenta só nos faz sentir o sabor distorcido das coisas.
Açúcar em demasia traz péssimas consequências.
Talvez, o agridoce estimule um pouco mais a imaginação.
Respondi que desejava sabor. Mais sabor!
Fujo o quanto posso do vício amargo.
A desconfiança, às vezes, nos obriga a sermos azedos.
Cansei-me do sal do aperitivo.
Pimenta só nos faz sentir o sabor distorcido das coisas.
Açúcar em demasia traz péssimas consequências.
Talvez, o agridoce estimule um pouco mais a imaginação.
Ah, sim... O que realmente desejo?
Suavidade e intensidade. Nada mais.
sábado, 17 de julho de 2010
Amor e lama no jardim da infância
E foi assim, de mãos dadas no parquinho da escola, que senti pela primeira vez o que vim chamar de cumplicidade depois de adulta. Era a única criança da escola que poderia encontrar fora dela. Claudemir, o único loiro de olhos verdes da escola. Sentava-se ao meu lado. Ele era meu amigo!
Infelizmente não me lembro do que é que brincávamos, muito menos se os encontros ocorriam com frequência. Sei que as lembranças não tem tempo exato, elas só permanecem! A companhia de uma criança da mesma idade que eu, fazia-me sentir diferente das outras.
Sei que fui muito bundona, não gostava (e não gosto) de me meter em encrenca e temia perder a amizade dos outros. Fazia tudo o que a professora pedia. Repetia, inúmeras vezes, as letras que me ensinara. Sentia-me bem assim.
***
Sempre tivemos problemas com o despertador aqui em casa, e foi num dia como esse: chuvoso, frio... quase remelento que escorreguei descendo uma das vielas próximas à escola. Sujei todo o conga branco. Nem o uniforme verde musgo salvou-me da trajédia (grega) e de quebra, tomei uns puxões de orelha de minha mãe.
Ela nunca foi muito boa nisso também: sofre daqui e desconta em algo que nada resolverá.
Agora me diga? O que um puxão de orelha em uma criança suja de lama e atrasada para a escola , resolveriam? Só sei que foi naquele dia que experimentei a dor de um choro guardado. E se passei por semelhante experiência antes disso, não doeu tanto, afinal, não me lembro mais.
Agora me diga? O que um puxão de orelha em uma criança suja de lama e atrasada para a escola , resolveriam? Só sei que foi naquele dia que experimentei a dor de um choro guardado. E se passei por semelhante experiência antes disso, não doeu tanto, afinal, não me lembro mais.
Atrasada, suja de lama, orelhas fervendo e um nó de arame farpado preso na garganta. Queria chorar... respirei e segui para a última cadeira, no fundo da sala. Não era o "meu lugar", mas o outro... aquele ao lado do meu amigo, tinha sido ocupado por outra menina.
Enquanto a professora foi buscar algo para ajudar-me a limpar a roupa, meu pesadelo ganhou um segundo capítulo:
- "ATRASADA! ATRASADA! ATRASADA!!!" - berraram meus coleguinhas, como numa torcida em um estádio de futebol.
O nó de arame farpado se transformou num ouriço inflado. Não aguentei a dor e chorei.
Tenho raiva desse dia até hoje! Tenho raiva de mim e vou dizer o por quê:
Quando a professora retornou à sala, vendo-me aos prantos perguntou o que havia acontecido e a sonsa aqui - com medo de não ter alguém para brincar na hora do recreio -, respondeu:
- Nada. Acho que a mesa está me apertando um pouco na barriga, só isso.
sábado, 26 de junho de 2010
Revendo escolhas - I
Assisti, no início desta semana, a uma reportagem em um programa "Teen" na TV Cultura que discutia os cuidados que um jovem deveria ter ao escolher sua carreira. Reduzi o volume do som autofalante no computador e aumentei o da TV instintivamente. Até dei risada de mim mesma: "Estou beirando os trinta! Isso não deveria me interessar mais, né?".
Ignorando minha sessão de auto-sarcasmo, prestei atenção à toda matéria e o que me chamou a atenção foi o depoimento de uma garota de 18 anos dizendo que aquele momento era muito importante para ela, pois tratava-se de uma decisão que determinaria todo o seu futuro. A coitada não me disse nenhuma novidade até aí, mas confesso ter usado novamente de sarcasmo ao falar com o aparelho: "Se liga, doida! Daqui dez anos pensará em outra coisa para fazer. Relaxa, sempre há um jeito de mudar de rumo".
Será mesmo? Até perdi o sono depois disso. Corri para a cozinha, abri a geladeira (por que sempre procuramos resposta dentro de um objeto que serve para resfriar alimentos, hein?), nada para beliscar e um restinho de Coca-Cola sem gás.
Nem o refrigerante insosso pôde responder. Todavia, a (mal)dita reportagem serviu de alavanca para abrir um baú de memórias: quando foi mesmo que optei pelo magistério?
Duas profissões sempre fizeram parte do meu imaginário infantil. Uma delas é ainda um enigma. Acompanhava religiosamente os programas do Chacrinha, sonhava em voar naquela espaçonave de última geração com a Xuxa e desfilava pelo quintal cantarolando "Manequim" do grupo Dominó.
Engana-se aquele que pensa que eu fico envergonhada ao contar isso. Não adianta negar o passado, pois sei que algum dia meus tios vão retirar a poeira de seus arquivos VHS e provar o quanto era "aplicada" nas festas de família.
Recordo-me de duas promessas: "Se teu pai conseguir logo um emprego, você entra no balé" e "Procure um curso de teatro que não seja muito longe ou caro e vamos ver o que podemos fazer". Adultos deveriam entender o que isto realmente significa para quem tem menos de 10 anos de idade!
Não os culpo. Eu quem deveria ser mais decidida, contudo, optei pela reprodução dos modelos que conhecia bem. Aos 12 já recebia uns trocados para cuidar das filhas de minha vizinha: lousa na parede, folhas de um caderno e o bom e velho "ditado". A mãe jurava que as meninas estavam melhores na escola e eu, convencida de que era muito boa professora. Mas o que realmente importava era "aquela" caneta colorida com cheirinho de chiclete fazendo parte do meu acervo no estojo escolar! Estava rica!
Decidir pela minha profissão foi, portanto, muito fácil: opte pelo que poderá dar retorno o quanto antes, caminhe com suas próprias pernas e, se sobrar tempo, dance!
Vejam só, quanta ironia! De que retorno estava falando?
Aos 18 anos eu não sabia o significado de "efêmero", "controverso" e "pioneirismo".
Ignorando minha sessão de auto-sarcasmo, prestei atenção à toda matéria e o que me chamou a atenção foi o depoimento de uma garota de 18 anos dizendo que aquele momento era muito importante para ela, pois tratava-se de uma decisão que determinaria todo o seu futuro. A coitada não me disse nenhuma novidade até aí, mas confesso ter usado novamente de sarcasmo ao falar com o aparelho: "Se liga, doida! Daqui dez anos pensará em outra coisa para fazer. Relaxa, sempre há um jeito de mudar de rumo".
Será mesmo? Até perdi o sono depois disso. Corri para a cozinha, abri a geladeira (por que sempre procuramos resposta dentro de um objeto que serve para resfriar alimentos, hein?), nada para beliscar e um restinho de Coca-Cola sem gás.
Nem o refrigerante insosso pôde responder. Todavia, a (mal)dita reportagem serviu de alavanca para abrir um baú de memórias: quando foi mesmo que optei pelo magistério?
Duas profissões sempre fizeram parte do meu imaginário infantil. Uma delas é ainda um enigma. Acompanhava religiosamente os programas do Chacrinha, sonhava em voar naquela espaçonave de última geração com a Xuxa e desfilava pelo quintal cantarolando "Manequim" do grupo Dominó.
Engana-se aquele que pensa que eu fico envergonhada ao contar isso. Não adianta negar o passado, pois sei que algum dia meus tios vão retirar a poeira de seus arquivos VHS e provar o quanto era "aplicada" nas festas de família.
Recordo-me de duas promessas: "Se teu pai conseguir logo um emprego, você entra no balé" e "Procure um curso de teatro que não seja muito longe ou caro e vamos ver o que podemos fazer". Adultos deveriam entender o que isto realmente significa para quem tem menos de 10 anos de idade!
Não os culpo. Eu quem deveria ser mais decidida, contudo, optei pela reprodução dos modelos que conhecia bem. Aos 12 já recebia uns trocados para cuidar das filhas de minha vizinha: lousa na parede, folhas de um caderno e o bom e velho "ditado". A mãe jurava que as meninas estavam melhores na escola e eu, convencida de que era muito boa professora. Mas o que realmente importava era "aquela" caneta colorida com cheirinho de chiclete fazendo parte do meu acervo no estojo escolar! Estava rica!
Decidir pela minha profissão foi, portanto, muito fácil: opte pelo que poderá dar retorno o quanto antes, caminhe com suas próprias pernas e, se sobrar tempo, dance!
Vejam só, quanta ironia! De que retorno estava falando?
Aos 18 anos eu não sabia o significado de "efêmero", "controverso" e "pioneirismo".
Revendo escolhas - II
Acalmem-se, deixe-me explicar!
Não conhecia o significado de efêmero porque o prazer que se obtêm com a média de setecentos alunos/ano não corresponde às horas perdidas corrigindo avaliações.
Quando aluna, pensava que entregar uma avaliação em branco era o ápice da transgressão - jamais arriscaria tal façanha! Hoje, agradeço estes infelizes. Não serei agredida com informações sem nexo, frases mal formuladas, ortografia e caligrafia inexistentes. Afirmo que há provas em que preferiria receber em braile!
As controvérsias surgem quando, ao bater o sinal para o intervalo, alguns alunos dizem: "Mas já? Tava tão legal!"; "Nossa, professora! Eu nunca tinha pensado nisso!". Ok, confesso. Isso acontece uma vez por semestre, mas dá um gostinho mágico àquele que tenta segurar na garganta seus incontáveis pimpolhos.
Já me revoltei com um vendedor de "microfones da Madona" com um falante preso na cintura - segundo ele, era um produto exclusivo para professores, nas cores preto, branco e rosa.
Esbravejei sem titubear: "Quem disse que, para conquistar o respeito dos alunos, eu deveria aumentar o volume de minha voz?". O resultado? Estou com dois nódulos nas cordas vocais, não canto mais nem debaixo do chuveiro e sei que guardei o cartão daquele vendedor em algum lugar.
Sobre o pioneirismo? O significado desta palavra me vem ao paladar todos os dias. Não há nenhum artista assumido em minha família. Seguimos todos a mesma corrente operária, executamos serviços, vendemos nossas horas e não pensamos muito sobre isso para não enlouquecer.
Sinto que, neste ponto, eu consegui romper com as tradições.
Enlouqueci!
Chutei o balde!
Larguei tudo e saí correndo!
Corri e estou tão longe do que me trouxe aqui... É estranho voltar para casa. Já não me reconheço diante dos outros, muito menos em frente ao espelho. Falo sozinha e, às vezes, isso é engraçado. Até ouso expor algumas coisas que penso em palavras. Se alguém quiser ler, ótimo.
Pioneira serei, quando responder alguns dos meus enígmas nauseantes. Até as enumerei para ficar mais didático:
1° De que forma pendurarei meu avental sujo de pó de giz?
2° Será que estou velha demais para usar sapatilhas de dança pela primeira vez?
3° Há alguém nesse mundo que viva disso, somente?
4° Assumir, publicamente, minhas (des)organizadas hipóteses fará de mim uma pessoa menos confiável, insegura ou fraca?
Quando finalmente resolver estas (e outras) questões, desejo ter a certeza de que nenhuma decisão profissional tomada aos 18 anos será totalmente irreversível.
Não conhecia o significado de efêmero porque o prazer que se obtêm com a média de setecentos alunos/ano não corresponde às horas perdidas corrigindo avaliações.
Quando aluna, pensava que entregar uma avaliação em branco era o ápice da transgressão - jamais arriscaria tal façanha! Hoje, agradeço estes infelizes. Não serei agredida com informações sem nexo, frases mal formuladas, ortografia e caligrafia inexistentes. Afirmo que há provas em que preferiria receber em braile!
As controvérsias surgem quando, ao bater o sinal para o intervalo, alguns alunos dizem: "Mas já? Tava tão legal!"; "Nossa, professora! Eu nunca tinha pensado nisso!". Ok, confesso. Isso acontece uma vez por semestre, mas dá um gostinho mágico àquele que tenta segurar na garganta seus incontáveis pimpolhos.
Já me revoltei com um vendedor de "microfones da Madona" com um falante preso na cintura - segundo ele, era um produto exclusivo para professores, nas cores preto, branco e rosa.
Esbravejei sem titubear: "Quem disse que, para conquistar o respeito dos alunos, eu deveria aumentar o volume de minha voz?". O resultado? Estou com dois nódulos nas cordas vocais, não canto mais nem debaixo do chuveiro e sei que guardei o cartão daquele vendedor em algum lugar.
Sobre o pioneirismo? O significado desta palavra me vem ao paladar todos os dias. Não há nenhum artista assumido em minha família. Seguimos todos a mesma corrente operária, executamos serviços, vendemos nossas horas e não pensamos muito sobre isso para não enlouquecer.
Sinto que, neste ponto, eu consegui romper com as tradições.
Enlouqueci!
Chutei o balde!
Larguei tudo e saí correndo!
Corri e estou tão longe do que me trouxe aqui... É estranho voltar para casa. Já não me reconheço diante dos outros, muito menos em frente ao espelho. Falo sozinha e, às vezes, isso é engraçado. Até ouso expor algumas coisas que penso em palavras. Se alguém quiser ler, ótimo.
Pioneira serei, quando responder alguns dos meus enígmas nauseantes. Até as enumerei para ficar mais didático:
1° De que forma pendurarei meu avental sujo de pó de giz?
2° Será que estou velha demais para usar sapatilhas de dança pela primeira vez?
3° Há alguém nesse mundo que viva disso, somente?
4° Assumir, publicamente, minhas (des)organizadas hipóteses fará de mim uma pessoa menos confiável, insegura ou fraca?
Quando finalmente resolver estas (e outras) questões, desejo ter a certeza de que nenhuma decisão profissional tomada aos 18 anos será totalmente irreversível.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Gutierry, o santista.
Gutierry. Esse nome é famoso na escola em que trabalho. Uma criança que está matriculada desde a primeira série nesta mesma escola e, aos 12 anos de idade, chegou à 5.Série. Passou por todo o tipo de reforço escolar, frequentou as classes de PIC (Projeto Intensivo de Ciclo) e foi aprovado automaticamente mesmo sem saber ler e escrever fluentemente.
Reconhece as letras de seu nome, e se não estiver ocupado "tocando o terror" na sala de aula, copia uma palavra ou duas da lousa (isso quando reconhece as letras cursivas!).
Tensão. Que sentido faz a uma criança neste estágio de desenvolvimento compreender "A Importância dos Vestígios Materiais para o estudo da História"? Diante de uma classe com 40 alunos, com idade aproximada de 10, 12 anos. Como dar atenção à esse garoto?
Soube, por alto do histórico familiar dele: é órfão de pai, a mãe descobriu que possui o vírus HIV e vem usado todo o tipo de drogas desde então. Sua "madrinha", tem uma espécie de guarda sobre ele, mas à distância. É a única pessoa com quem ele pode contar.
Como se não bastasse tanta desgraça para uma criança, este garoto só pode ter algum propósito muito especial nesta vida, pois já driblou a morte em dois graves acidentes: primeiro, um furo com uma barra de metal na cabeça e depois um atropelamento que lhe custou o baço.
Neste último sábado, preferi abandonar as apostilas e propor um trabalho em grupo. São poucos os alunos que frequentam as aulas de reposição - impostas pela SEE, diante da greve ocorrida no início do deste ano letivo -, logo, fazer atividades que despertassem o lúdico, organização e criatividade eram mais que bem vindas não só para mim, quanto para os alunos.
Gutierry, para minha surpresa, era o aluno que mais participava no grupo de meninos. Eles decidiram escrever um "Jornal do Futebol". Observei de longe suas argumentações, vi que sabia também de cor o resultado dos jogos da última rodada e desejava falar sobre isso. Por alguma razão, seus colegas não aceitavam suas ideias e, depois de tanto insistir, solicitou-me uma folha de papel cartão para que fizesse sozinho todo o trabalho.
Expliquei que não era assim que ele resolveria as coisas, que era muito trabalho para uma pessoa realizar em apenas uma aula. Mas aquele garoto me convenceu com um largo sorriso e muita motivação. Aceitei depois de ver todos os meus argumentos pedagógicos e autoritários se esgotarem. Melhor assim.
Sentei-me ao lado dele para organizarmos o espaço que seria utilizado para a escrita da notícia e, também para a ilustração. Foi clara a opção dele pelo desenho do campo de futebol: os 11 jogadores de cada time, o círculo no meio de campo perfeito utilizando o decalque de um corretivo líquido... Mas, e a manchete? Qual era a notícia? Quem estava jogando? Qual foi o resultado desse jogo?
Nossa aula já estava acabando e precisei pressionar. Algo escrito deveria sair dalí. E saiu: "S A T O x C U R I T A" (leia-se Santos X Corinthians).
Pela primeira vez depois de dois anos senti-me satisfeita em estar novamente com meus alunos em sala de aula. A motivação e a luta daquele garoto para escrever aquelas palavras tão curtas é proporcional ao meu esforço diário: minhas intenções podem ser enormes, todavia, os resultados são deficientes, quase efêmeros.
Agora fica a expectativa: será que no próximo sábado ele voltará com tamanha motivação para concluir o seu trabalho?
Reconhece as letras de seu nome, e se não estiver ocupado "tocando o terror" na sala de aula, copia uma palavra ou duas da lousa (isso quando reconhece as letras cursivas!).
Tensão. Que sentido faz a uma criança neste estágio de desenvolvimento compreender "A Importância dos Vestígios Materiais para o estudo da História"? Diante de uma classe com 40 alunos, com idade aproximada de 10, 12 anos. Como dar atenção à esse garoto?
Soube, por alto do histórico familiar dele: é órfão de pai, a mãe descobriu que possui o vírus HIV e vem usado todo o tipo de drogas desde então. Sua "madrinha", tem uma espécie de guarda sobre ele, mas à distância. É a única pessoa com quem ele pode contar.
Como se não bastasse tanta desgraça para uma criança, este garoto só pode ter algum propósito muito especial nesta vida, pois já driblou a morte em dois graves acidentes: primeiro, um furo com uma barra de metal na cabeça e depois um atropelamento que lhe custou o baço.
Neste último sábado, preferi abandonar as apostilas e propor um trabalho em grupo. São poucos os alunos que frequentam as aulas de reposição - impostas pela SEE, diante da greve ocorrida no início do deste ano letivo -, logo, fazer atividades que despertassem o lúdico, organização e criatividade eram mais que bem vindas não só para mim, quanto para os alunos.
Gutierry, para minha surpresa, era o aluno que mais participava no grupo de meninos. Eles decidiram escrever um "Jornal do Futebol". Observei de longe suas argumentações, vi que sabia também de cor o resultado dos jogos da última rodada e desejava falar sobre isso. Por alguma razão, seus colegas não aceitavam suas ideias e, depois de tanto insistir, solicitou-me uma folha de papel cartão para que fizesse sozinho todo o trabalho.
Expliquei que não era assim que ele resolveria as coisas, que era muito trabalho para uma pessoa realizar em apenas uma aula. Mas aquele garoto me convenceu com um largo sorriso e muita motivação. Aceitei depois de ver todos os meus argumentos pedagógicos e autoritários se esgotarem. Melhor assim.
Sentei-me ao lado dele para organizarmos o espaço que seria utilizado para a escrita da notícia e, também para a ilustração. Foi clara a opção dele pelo desenho do campo de futebol: os 11 jogadores de cada time, o círculo no meio de campo perfeito utilizando o decalque de um corretivo líquido... Mas, e a manchete? Qual era a notícia? Quem estava jogando? Qual foi o resultado desse jogo?
Nossa aula já estava acabando e precisei pressionar. Algo escrito deveria sair dalí. E saiu: "S A T O x C U R I T A" (leia-se Santos X Corinthians).
Pela primeira vez depois de dois anos senti-me satisfeita em estar novamente com meus alunos em sala de aula. A motivação e a luta daquele garoto para escrever aquelas palavras tão curtas é proporcional ao meu esforço diário: minhas intenções podem ser enormes, todavia, os resultados são deficientes, quase efêmeros.
Agora fica a expectativa: será que no próximo sábado ele voltará com tamanha motivação para concluir o seu trabalho?
domingo, 21 de março de 2010
Domingo
Acordei hoje com aquela sensação boa que os sonhos deixam. Busquei uma posição confortável entre os lençóis e travesseiros para que pudesse lembrar do enredo, das personagens e dos diálogos para que esse prazer se prolongasse por mais alguns minutos.
Permaneci estática, vasculhei a memória mas não encontrei nada. Quando desejamos prorrogar o início do dia não se desiste tão fácil: optei pelas cenas reais.
Um intenso monólogo, olhares furtivos, ouvidos atentos aos instrumentos que se revezavam, mãos que dançavam e descobriam timidamente o palco dos corpos.
Sem ensaio nem coreografia, apenas dois expectadores.
Este prazer desfrutado com tamanha intensidade foi tão etéreo que já se confunde aos sonhos de uma manhã de domingo que não quer começar.
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