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domingo, 22 de janeiro de 2012

Já fui surfista e hoje tenho medo do mar

Quando não se entende como encaramos o fim, ou seja, como fazemos para começar outra coisa que seja depois do fim, nosso desejo imediato é repensar o começo. Foram tantos finais! Tantas histórias que de começo, nada tiveram. De fato, só existiram em minha cabeça. Todas elas começaram como eu desejava e terminaram sem que percebesse. Ainda guardo um pedaço, um cheiro, um som... até o calor do sol sobre a pele... Isso ainda me faz recordar, mas não me faz viver.

Certo dia me deram um exemplo. O  do surfista que amarra suas pranchas ao tornozelo, enfrenta as ondas, toma belos caldos, perde sua prancha, mas aquela fita amarrada ao tornozelo permanece. Assim ocorre sucessivamente até que seus pés se encontrem lotados de fitas sem utilidade, impossibilitando-o de fazer qualquer manobra mais ágil. Os restos das pranchas sobrepostas e apertadas aos tornozelos impedem o laçar de outras novas. O surfista resolve então se aposentar. Senta-se em frente ao mar, emociona-se com as ondas, com a agilidade que outros ex-companheiros ao se divertem e dominarem a força da gravidade, das águas... Mas os restos das pranchas presas aos seus pés o impedem de caminhar, de voltar ao mar. Ele tem medo de retirar o que objetivamente não serve mais. Tem medo de abrir mão das lembranças, das ondas, da adrenalina que foi arriscar-se. Suas pranchas, apenas o que sobrou de suas pranchas, são testemunhas de suas vitórias e fracassos. O que está preso em seus pés são os únicos que podem depor toda a verdade. Tirar isso dele, seria abrir espaço para o devaneio, para a fantasia. Quanta bobagem! Na verdade, do que esse surfista tem mesmo medo é de encarar a própria pele sob tantos farrapos. Há feridas! E elas não foram causadas pelos acidentes, pelo rompimento, pela perda das pranchas ou pelo próprio mar. Feridas só persistem porque foram falsamente curadas. Foram encobertas!

Perguntei a quem me deu este exemplo do surfista (eu jamais pensaria numa coisa assim!), como poderia começar a cortar esses laços, estes apêndices que não fazem outra além de provocar dor e paralisia. Não obtive uma resposta concreta. Meu desejo sincero neste momento é o de olhar nos olhos de cada um que se foi e pedir perdão. Perdão por ter falhado, por não ser o que esperavam que eu fosse. Mas ainda acho que isso não é o suficiente. Sei que é necessário também perdoar. Há tantos nós que ainda me sufocam, me paralisam. Não sei por onde começar. Também não sei se estou pronta para me ver despida de sofrimento.
Se pensar no exemplo do surfista, parece que já me esqueci da sensação de brincar no mar, de me sentir envolta, embalada e acariciada por ele. Há um peso e eu não sei como esvaziá-lo.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Acordo literário

Iniciarei uma nova campanha em favor de mim mesma: cada vez que pensar em ouvir tua voz não recorrerei mais ao celular para mandar mensagens ou fazer chamadas que dificilmente serão atendidas. Em vez disso, procurarei um poema para ler. Aquela pilha de livros que aguarda pelo tempo que eu esperava tanto ter, me agradecerá por isto.

Sou consciente de que não é possível retirar tudo o que não me faz bem e jogar fora de uma só vez. Temos certeza de que esse vazio provocado pela ruptura seja ainda mais dolorido. Sabemos que é tempo de expandir-nos, de buscarmos novos caminhos e pensarmos que não é possível reviver ou nos prender às lembranças torpes de nossos dias mais felizes.

Tuas palavras serão substituídas por outras, de outras pessoas. Talvez ainda mais criativas e intensas que as tuas... Assim espero. Se não for assim, compro um livro de piadas, pois sei que você não tem o menor senso de humor.

domingo, 11 de setembro de 2011

Aparição amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nosso corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis, ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.


Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.


Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.


Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.


Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?


O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.


Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 28 de agosto de 2011

Pelo telefone

Se a dúvida algum dia foi algum benefício, eu não sei. Sei que eu soube aproveitar muito bem os benefícios das fantasias que criamos juntos e consegui, também, me punir por todas elas sozinha - talvez, em algumas ocasiões, muito mais do que deveria. Já se passaram meses e eu ainda fico pensando se você é realmente quem disse ser. Tudo isso não passa de um clichê ridículo, sabemos disso... Sinto tua falta e sou uma tremenda de uma egoísta por não conseguir me desfazer do teu número gravado em minha agenda no celular, pois é com você que eu desejo estar quando o dia está calmo ou quando preciso de refúgio.

O "E se..." ainda lateja incansavelmente em minha cabeça. Num dia escolho te odiar, noutro quero pensar que nada disso é verdade e dirijo toda a minha energia ao trabalho, mas a terceira opção é a que me agrada mais: sonhar e acreditar piamente nos trinta e poucos dias em que eu pude voltar a sorrir na companhia de alguém que realmente me amou.

Ouvir o teu sotaque nas palavras de outras pessoas me aproxima de algo totalmente inconsistente e irracional, no entanto, faz emergir constantemente àquela energia boa que nos mantinha conectados somente pelo telefone.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dedicatória

Dedico aquele poema do Vinícius aos que passaram
E aos que passarão
Aos amores que permanecem
E aos que me esquecerão

Que é de retalhos...
finos tecidos descartados,
com doces linhas permeados

Tristeza aqui não!
Colcha única esse meu coração.

(via twitter @CanelaDS + @Galldino #twitradio)


domingo, 1 de agosto de 2010

Escrevo cartas para quem não vai ler - Parte II

Já conheceu alguém com uma letra estampada na testa? Eu já! Aliás, quem nunca viu é porque ainda não olhou bem para o espelho. Sempre usamos estas letras de escudo ou, usam-nas como rótulos. Já que não posso livrar-me dela, somarei outras letras. Apenas uma não dará conta de revelar o que eu ainda nem sei o que existe embaixo dessa carne.

***

O som... a mistura, estranheza e curiosidade.
- "Quem será?"
- "Este 'quem' é múltiplo!"
- Será que, em uma destas parcelas, há a paciência? Afinal, para contar histórias, preciso de tempo para internaliza-las.
- Que história? Está louca? Volte e recolha-se. Não está pronta...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Escrevo cartas para quem não vai ler - Parte I

Publicarei aqui uma série de textos soltos, que, por alguma razão, não chegaram ainda ao seu destinatário. Antes que eu morra engasgada, segue:

Um som diferente conseguiu penetrar aquela figura que, por hora, decidiu abandonar alguns arquétipos. Sem opção naquele momento, o ostracismo poderia ser o único ambiente que pudesse acolhê-la.

Já que estava à margem, por que não recriar seu próprio mundo? Por que não publicar uma das suas últimas doces memórias nas paredes escuras, das quais ninguém saberá quem escreveu, muito menos quem poderá ler?

Mas o som, aquele indescritível som, era sim um convite para buscar novos ares, novas histórias para contar. Da inconformada negação, germinou um perfume, um movimento... sabor!

Ora imaginem! Se caminhar durante o dia já era um grande risco, quem dirá trocá-lo pela noite? "Lembre-se, ninguém está disposto. Ninguém quer ser exposto. Recolha-se, não será bem vinda aqui".

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sabe o que é estranho?

Retornando para a minha casa outro dia, pensei sobre algumas situações que poderiam não ser estranhas e, por teimosia, surpreendo-me com elas.

O amor não é eterno. Ele nasce, cresce, amarga e morre. Se você não morrer com ele, parabéns!

Fagulhas de carinho alimentam, por décadas, o calor de um coração demente.

Estar satisfeito com algo parece burrice!

Conhecer pessoas, não significa que elas desejam conhecer você!

Todos os dias precisam dos mesmos minutos. Jamais deixarei de passar pelas 23h23 ilesa. 

Podemos mudar de opinião, sim. Basta  mudar de país e excluir seu perfil no Twitter.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Vultos

Há vultos que não se desprenderão jamais de suas imagens.  Vejo diferentes vultos sobre um novo objeto a ser, teoricamente, descoberto. Vejo também receitas clássicas daquilo que nos atrai, novamente, à inércia. Do histórico que possuo, deveria estar ansiosa, apreensiva, sequiosa...

Não foi isso que ocorreu.

Estaria padecendo de algum distúrbio visual? Teria descoberto uma solução para o ceticismo? Só vejo a mistura do que atrai, inspira, reduz e fere...

Devolvo o presente à prateleira dos desejos ou enfeito minha estante de auto-flagelo?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Barbas

De tão próxima, percebi que estava com a barba mal feita. Pude enxergar um dos pêlos cortados pela lâmina ainda preso sobre aquela face. "Devia ter feito com pressa", pensei. Subitamente, controlei as mãos e meus pensamentos vadios. Não era só um favor em livrar a pele de um fio; era também o favor de não tocar novamente naquele rosto. Possuo memória visual e tátil, não conseguiria encará-lo depois deste gesto, supostamente inofensivo.

Após despedir-me, vi em meu celular uma chamada perdida. Era daquele que não faz questão de manter-se barbeado. Aliás, usa uma máscara densa sobre a face; dá um toque másculo e o protege de sua sensibilidade praticamente incurável. Não é da pele que me refiro, a sensibilidade sob esta máscara é transeunte e inalienável. Sorte dele de se proteger desta forma opulenta. Sorte minha de tê-lo visto sem máscara e o enxergar assim, sempre. Azar o nosso de não usarmos isso em nosso favor.

domingo, 21 de março de 2010

Domingo

Acordei hoje com aquela sensação boa que os sonhos deixam. Busquei uma posição confortável entre os lençóis e travesseiros para que pudesse lembrar do enredo, das personagens e dos diálogos para que esse prazer se prolongasse por mais alguns minutos.

Permaneci estática, vasculhei a memória mas não encontrei nada. Quando desejamos prorrogar o início do dia não se desiste tão fácil: optei pelas cenas reais.

Um intenso monólogo, olhares furtivos, ouvidos atentos aos instrumentos que se revezavam, mãos que dançavam e descobriam timidamente o palco dos corpos.

Sem ensaio nem coreografia, apenas dois expectadores.

Este prazer desfrutado com tamanha intensidade foi tão etéreo que já se confunde aos sonhos de uma manhã de domingo que não quer começar.