Gutierry. Esse nome é famoso na escola em que trabalho. Uma criança que está matriculada desde a primeira série nesta mesma escola e, aos 12 anos de idade, chegou à 5.Série. Passou por todo o tipo de reforço escolar, frequentou as classes de PIC (Projeto Intensivo de Ciclo) e foi aprovado automaticamente mesmo sem saber ler e escrever fluentemente.
Reconhece as letras de seu nome, e se não estiver ocupado "tocando o terror" na sala de aula, copia uma palavra ou duas da lousa (isso quando reconhece as letras cursivas!).
Tensão. Que sentido faz a uma criança neste estágio de desenvolvimento compreender "A Importância dos Vestígios Materiais para o estudo da História"? Diante de uma classe com 40 alunos, com idade aproximada de 10, 12 anos. Como dar atenção à esse garoto?
Soube, por alto do histórico familiar dele: é órfão de pai, a mãe descobriu que possui o vírus HIV e vem usado todo o tipo de drogas desde então. Sua "madrinha", tem uma espécie de guarda sobre ele, mas à distância. É a única pessoa com quem ele pode contar.
Como se não bastasse tanta desgraça para uma criança, este garoto só pode ter algum propósito muito especial nesta vida, pois já driblou a morte em dois graves acidentes: primeiro, um furo com uma barra de metal na cabeça e depois um atropelamento que lhe custou o baço.
Neste último sábado, preferi abandonar as apostilas e propor um trabalho em grupo. São poucos os alunos que frequentam as aulas de reposição - impostas pela SEE, diante da greve ocorrida no início do deste ano letivo -, logo, fazer atividades que despertassem o lúdico, organização e criatividade eram mais que bem vindas não só para mim, quanto para os alunos.
Gutierry, para minha surpresa, era o aluno que mais participava no grupo de meninos. Eles decidiram escrever um "Jornal do Futebol". Observei de longe suas argumentações, vi que sabia também de cor o resultado dos jogos da última rodada e desejava falar sobre isso. Por alguma razão, seus colegas não aceitavam suas ideias e, depois de tanto insistir, solicitou-me uma folha de papel cartão para que fizesse sozinho todo o trabalho.
Expliquei que não era assim que ele resolveria as coisas, que era muito trabalho para uma pessoa realizar em apenas uma aula. Mas aquele garoto me convenceu com um largo sorriso e muita motivação. Aceitei depois de ver todos os meus argumentos pedagógicos e autoritários se esgotarem. Melhor assim.
Sentei-me ao lado dele para organizarmos o espaço que seria utilizado para a escrita da notícia e, também para a ilustração. Foi clara a opção dele pelo desenho do campo de futebol: os 11 jogadores de cada time, o círculo no meio de campo perfeito utilizando o decalque de um corretivo líquido... Mas, e a manchete? Qual era a notícia? Quem estava jogando? Qual foi o resultado desse jogo?
Nossa aula já estava acabando e precisei pressionar. Algo escrito deveria sair dalí. E saiu: "S A T O x C U R I T A" (leia-se Santos X Corinthians).
Pela primeira vez depois de dois anos senti-me satisfeita em estar novamente com meus alunos em sala de aula. A motivação e a luta daquele garoto para escrever aquelas palavras tão curtas é proporcional ao meu esforço diário: minhas intenções podem ser enormes, todavia, os resultados são deficientes, quase efêmeros.
Agora fica a expectativa: será que no próximo sábado ele voltará com tamanha motivação para concluir o seu trabalho?
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