domingo, 11 de setembro de 2011

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava 
só trazia o perfil da meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.


Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era divididas em metades
diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a verdade mais bela.
Nenhuma das duas era inteiramente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme 
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

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