Minha amiga Neura é daquelas que aparecem em minha casa logo pela manhã, fala pelos cotovelos e não dá a mínima para as minhas obrigações ou anseios.
Pergunto-me diariamente onde estava com a cabeça quando resolvi deixar essa mulher entrar na minha vida e tomar conta de todos os assuntos que só dizem respeito à mim. Mais ridícula, imparcial e problemática ainda não conheci!
Sei que em muitos momentos ela acerta em suas previsões e passo a considerá-la com mais empatia e até chamá-la carinhosamente de Dona Intuição. O problema é que nem sempre tenho paciência em esperar os resultados e já chuto o balde. Volta e meia arrependo-me e passo um bom tempo recolhendo a sujeira que ficou no chão e a minha amiga bate no peito orgulhosa, dá belas gargalhadas e, como se não bastasse, continua sussurrando amargamente em meus ouvidos enquanto estou de joelhos.
Quando anoitece, esta maldita resolve cantar com aquela voz de contralto melancólica dentro do meu quarto fazendo com que eu me convença do quanto fui, sou e continuarei sendo uma grande idiota.
Adormeço algumas vezes com grandes nódulos na garganta, um choro preso irremediável e algumas migalhas de consolo cedidas por outra amiga, a Solidão. Entre um pesadelo e outro, por vezes, sou presenteada por sonhos e sensações indescritíveis. A maioria das vezes é quando o outro amigo, Don Coração, resolve contar histórias antigas, faz pouco caso de quem só aparece por aqui para perturbar e finalmente sinto-me viva e feliz novamente.
Mais um dia nascerá e a ordem será: "SAI, NEURA!"
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