Caminha com os pés paralelos, porém, cada um deles está em um mundo diferente. Assim como uma criança que anda com o pé direito no asfalto e o esquerdo no meio fio. No asfalto tudo parece muito previsível, inevitável e tradicional. Por algum momento até tentou caminhar tranquilamente por esta estrada, como em uma caminhada saudável nas manhãs de domingo. Mas isto não o deixou satisfeito, este caminho estável, motivo de anseio de muitos conhecidos e de sua própria família não traria os desafios que sua consciência almejava.
Voltou a titubear, manquitolar e até achar graça do sobe e desce entre calçada e asfalto. Assim seguiu, até que numa pequena distração, pisou em falso em um bueiro. Destes, cujas tampas traiçoeiras que os órgãos responsáveis insistem em não substituir. Apesar do aspecto repugnante e pouco visto por aqueles que só desejam caminhar no asfalto, sentiu uma estranha identificação. Enxergar o belo naquilo que é negligenciado passou a incomodar muitos que estavam ao seu redor.
Saiu deste bueiro quando já tinha entendido que aquele não era um lugar para se viver permanentemente. Desejava mais uma vez a luz em sua pele, o sabor suave das frutas, o direito de gargalhar com programas de TV. A partir deste momento, seu caminhar nunca mais foi o mesmo. Assim como os heróis gregos que, por algum motivo, caminhavam entre céu e inferno buscando respostas – e nem sempre as conseguiam da maneira como esperavam.
Carregava consigo os prazeres mundanos que só o inferno poderia proporcionar, mas um estranho clamor pela paz e equilíbrio das emoções o deixava ainda mais ausente com aqueles que viviam próximo dele nos dois mundos.
Após longos períodos de caminhada, parava de tempos em tempos para ver se seria possível abrir mão de um dos mundos que conhecera. Desejava a estabilidade, a auto-confiança, o perdão pelas faltas e, conseqüentemente a paz. Mas não tinha dois pés direitos. Verificou melhor os desafios que superou, os prazeres que vivenciou, os desejos que ainda não tinha realizado no lado obscuro e também pensou: “Não tenho dois pés esquerdos”.
Quanto mais pensava sobre a decisão a ser tomada, mais tempo parado ficava. Sombras e luzes o perseguiam de forma a torturá-lo na melhor parte do dia: o repouso. Defenderia a solidão promíscua e libertadora ou o conveniente, saudável e o socialmente correto?
Na tentativa de tomar um fôlego, corria até a janela mais próxima e verificava como outras pessoas decidiram seguir seus caminhos. Achava bizarro e, às vezes, muito interessante a maneira como algumas pessoas encontraram soluções criativas para o seu caminhar. Mas ele desejava algo um pouco mais original.
Depois de anos tentando se encaixar tanto em um mundo quanto em outro, havia dentro dele uma grande quantidade de frustrações pessoais e decepções daqueles que o amaram muito, a mágoa ainda era latente. Sentia que nunca conseguiria suprir as necessidades afetivas alheias, pois depositava toda sua energia na indecisão. Não podia se permitir abrir um duvidoso coração a qualquer um era o que tinha de mais precioso, era o único órgão que o impulsionava para os dois sentidos sem discriminação.
Até que um dia, assim como ele, encontrou outra pessoa que também descobriu a graça de se caminhar com um pé aqui, outro acolá. Uma série de encontros e desencontros permitiu a identificação imediata. Para algumas dúvidas, o outro teria algum conselho a dar, mesmo que não fosse com palavras. Um olhar desfocado ao nada, respondia muito melhor que qualquer outro gesto. Por mais que desejasse que ninguém seguisse teus passos, devia admitir que este não fosse um caminho exclusivamente dele.
Passou então a compreender o significado de “complementaridade”. Aquilo que mais tinha dificuldade em manifestar, esta outra pessoa já era o contrário. O tempo passou, muito se pode aprender com as ausências e as presenças. Dos medos e paranóias. Mas o que mais incomoda a estes dois é o fato de não exporem sob nenhuma condição os possíveis sentimentos atrofiados em seus respectivos corações vazios.
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