sábado, 10 de setembro de 2011

Verbos

Sofrer é outro nome
do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.


Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu 
sei o reflexo meu?


Rir, astúcia do rosto
na ameaça de sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.


Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.


Verbos outros imperam 
em momentos acerbos.
Mas que para nomeá-los,
imperfeitos gargalos?


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 28 de agosto de 2011

Pelo telefone

Se a dúvida algum dia foi algum benefício, eu não sei. Sei que eu soube aproveitar muito bem os benefícios das fantasias que criamos juntos e consegui, também, me punir por todas elas sozinha - talvez, em algumas ocasiões, muito mais do que deveria. Já se passaram meses e eu ainda fico pensando se você é realmente quem disse ser. Tudo isso não passa de um clichê ridículo, sabemos disso... Sinto tua falta e sou uma tremenda de uma egoísta por não conseguir me desfazer do teu número gravado em minha agenda no celular, pois é com você que eu desejo estar quando o dia está calmo ou quando preciso de refúgio.

O "E se..." ainda lateja incansavelmente em minha cabeça. Num dia escolho te odiar, noutro quero pensar que nada disso é verdade e dirijo toda a minha energia ao trabalho, mas a terceira opção é a que me agrada mais: sonhar e acreditar piamente nos trinta e poucos dias em que eu pude voltar a sorrir na companhia de alguém que realmente me amou.

Ouvir o teu sotaque nas palavras de outras pessoas me aproxima de algo totalmente inconsistente e irracional, no entanto, faz emergir constantemente àquela energia boa que nos mantinha conectados somente pelo telefone.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Hema-toma

Sonhar tem sido uma grande fonte de prazer ultimamente. Todavia, os minutos que antecedem aos devaneios incríveis de meu cérebro inconsciente sempre tiveram duas soluções: ora se encarregam de se transformar em texto - ainda que ninguém possa ter acesso a eles-, ou se somariam aos tantos outros minutos (de nenhuma sabedoria) gastos até aqui. 

Num desses últimos minutos, antes que o sono pudesse me sabotar, decidi relembrar como nasceu e morreu uma ilusão estranhamente dúbia: enquanto ela abria novas perspectivas, também me rasgava dos pés a cabeça. 

Certa vez, questionei-me sobre como poderia acabar uma ilusão tão auto-destrutiva e consoladora como aquela. Descobri! Quer dizer, relembrei...

Nossa ilusão morreu simultanemente, quando já não tínhamos segredo algum para esconder um do outro e tudo parecia previsível demais. Quando minha dor finalmente se materializou naqueles hematomas, vi que aquilo jamais poderia ser amor. 

- "Sua vadia!"
...

- "Não sei se vou dormir agora..."

domingo, 7 de agosto de 2011

Pescaria

Isso não é um buraco. É um fosso! Ainda nem sei se o nome é saudade. Talvez seja só a vontade de sofrer, pois ainda que seja só dor, já seria alguma forma de sentimento. Não sentir nada é muito pior!

Sei que posso expulsar todos fantasmas, grilos ou crocodilos. No entanto, minha sombra permanecerá no meu encalço e boa parte das minhas ilusões se alimentarão de reflexos...

E esse buraco é só o que restou. Ainda não sei se me jogo de cabeça ou se arrumo uma vara de pescar. Sabe como é, né? Quem sabe ainda pode sair mais alguma coisa de lá?