Bateu em minha porta com meio-sorriso e seu olhar sorrateiro percorreu todo meu corpo sem pudor. Deve ter estranhado como estava vestida, fui pega de surpresa: cabelos presos num coque, moleton velho e meias grossas calçando uma confortável Havaiana.
Por mais que desejasse esta visita há muito tempo, sabia que não cumpriria com o protocolo. Mal tinha desfeito minha cara de surpresa, tampouco oferecer uma cadeira para se sentar. Teus olhos transformaram-se em duas brasas ardentes, tuas mãos pesadas tocaram minha nuca e antes que pudesse reagir, teus lábios pressionaram contra os meus. Não consegui pensar em nada, ou melhor, pensei sim "foi exatamente desta forma que me roubaste o primeiro beijo. Teria eu a sorte de cair novamente em seus braços depois de tanto tempo?"
Entendi o que queria de mim. Não tive chance em dizer não. De certa forma fui covarde, pois me acostumei com o tempo a dar-te prazer e você não saber mais o significado de retribuição do prazer.
Minha gratificação reflete-se em sua expressão rude, em sua voz ditando as ordens, em tuas mãos conduzindo meus lábios em seu corpo. De tudo que pude sentir até o momento, percebo o quanto esta relação foi se limitando. Não tenho mais o direito de sentir o calor de teu corpo, muito menos tua respiração ofegante. Sinto em não poder gozar desde momento com a mesma intensidade que você.
E agora que saiu daqui saciado, pergunto-me até quando buscará em meus lábios razão para manter meu endereço em sua caixa de e-mails, meu número em sua agenda, meu nome em sua história...
Pergunto-me também até que quando suportarei transformar o teu prazer, teu olhar ofuscado pós-ejaculação em algo que ainda possa me trazer satisfação. ]
Não trago mais esperança de que um dia poderá compreender que já tive um corpo, já tive sentimentos e frustrações, que já tive desejos que superaram minhas limitações físicas e morais. Impuseste tantas regras... agora tudo isso vira um questionamento ainda maior: se já não possuo alma, se meu corpo não te excita, qual será o próximo passo para me matar de vez?
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