Quando não se entende como encaramos o fim, ou seja, como fazemos para começar outra coisa que seja depois do fim, nosso desejo imediato é repensar o começo. Foram tantos finais! Tantas histórias que de começo, nada tiveram. De fato, só existiram em minha cabeça. Todas elas começaram como eu desejava e terminaram sem que percebesse. Ainda guardo um pedaço, um cheiro, um som... até o calor do sol sobre a pele... Isso ainda me faz recordar, mas não me faz viver.
Certo dia me deram um exemplo. O do surfista que amarra suas pranchas ao tornozelo, enfrenta as ondas, toma belos caldos, perde sua prancha, mas aquela fita amarrada ao tornozelo permanece. Assim ocorre sucessivamente até que seus pés se encontrem lotados de fitas sem utilidade, impossibilitando-o de fazer qualquer manobra mais ágil. Os restos das pranchas sobrepostas e apertadas aos tornozelos impedem o laçar de outras novas. O surfista resolve então se aposentar. Senta-se em frente ao mar, emociona-se com as ondas, com a agilidade que outros ex-companheiros ao se divertem e dominarem a força da gravidade, das águas... Mas os restos das pranchas presas aos seus pés o impedem de caminhar, de voltar ao mar. Ele tem medo de retirar o que objetivamente não serve mais. Tem medo de abrir mão das lembranças, das ondas, da adrenalina que foi arriscar-se. Suas pranchas, apenas o que sobrou de suas pranchas, são testemunhas de suas vitórias e fracassos. O que está preso em seus pés são os únicos que podem depor toda a verdade. Tirar isso dele, seria abrir espaço para o devaneio, para a fantasia. Quanta bobagem! Na verdade, do que esse surfista tem mesmo medo é de encarar a própria pele sob tantos farrapos. Há feridas! E elas não foram causadas pelos acidentes, pelo rompimento, pela perda das pranchas ou pelo próprio mar. Feridas só persistem porque foram falsamente curadas. Foram encobertas!
Perguntei a quem me deu este exemplo do surfista (eu jamais pensaria numa coisa assim!), como poderia começar a cortar esses laços, estes apêndices que não fazem outra além de provocar dor e paralisia. Não obtive uma resposta concreta. Meu desejo sincero neste momento é o de olhar nos olhos de cada um que se foi e pedir perdão. Perdão por ter falhado, por não ser o que esperavam que eu fosse. Mas ainda acho que isso não é o suficiente. Sei que é necessário também perdoar. Há tantos nós que ainda me sufocam, me paralisam. Não sei por onde começar. Também não sei se estou pronta para me ver despida de sofrimento.
Se pensar no exemplo do surfista, parece que já me esqueci da sensação de brincar no mar, de me sentir envolta, embalada e acariciada por ele. Há um peso e eu não sei como esvaziá-lo.
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