Eu tinha certeza de que havia me despedido de você e que nada do que fizesse poderia me causar algo além de náuseas. Veja só como é a vida! Não importa quantas voltas a Terra possa dar em torno do Sol, teu sorriso sarcástico e olhar caído após dois ou três goles de whisky permanecerão os mesmos e eu... Eu ainda não sei o que fazer com esse embrulho pulsante no meu peito. Talvez você não o tenha rejeitado à toa, ele não deverá pertencer a outra pessoa que não seja eu mesma... Será?
Às vezes eu me atrevo a abrí-lo. Sabe como é, né? Se somarmos pessoas com ansiedade extrema e a falta de ocasiões para se presentear alguém, não hesito em desfazer essa fita. Sinto o quanto está vivo e íntegro os sentimentos alí reservados e torno a embrulhá-lo com todo cuidado; faço o possível para que o embrulho latejante ainda tenha uma aparência dígna e atraente.
Por algum motivo, ainda há um espaço vazio em nosso diálogo. Eu sorrio, você sorri... Eu peço um trago do teu cigarro, você pergunta como vão as coisas, mas não consegue ouvir o que tenho a dizer: "Eu estou muito bem! E vejo que você também está... Está bem acompanhado!". Admiro essa tua capacidade de se envolver tantas mulheres, gostaria de saber que gosto tem isso. É bom ser tão sedutor assim?
Li hoje numa das primeiras frases de um livro que "o problema não são os erros, o problema é o teu olhar. Os erros não se diferenciam dos acertos. Não têm sentido em si. O problema é você, que não é capaz de dar-lhes outros significados".*
Você não tem ideia do quanto isso fez sentido pra mim. Essa história de ressignificação dos objetos, situações e pessoas é muito mais honesto com nossas almas do que carregar o peso (por vezes mal-cheiroso) das nossas faltas. Já não me sinto culpada por ter me rebaixado à puta em tantas situações em que estivemos juntos. Entendi que depois de te ver tão belo (e levemente bêbado), não haverá motivos para sentir-me nauseada. Teu nome ou tua presença será sinônimo de superação, reencontro e - creia! - amor-próprio!
Artistas plásticos, fotógrafos, cineastas e historiadores entendem o significado do ângulo, dos planos, das cores e formas, da profundidade e consistência, do foco ou dos recortes...
Hoje entendi que meu melhor presente, minha melhor intenção, meus maiores medos não pertencerão a mais ninguém antes que eu os reconheça ou ressignifique como meus. Antes de ser de qualquer outro alguém. Basta não esquecer do básico: o OLHAR.
* SAAVEDRA, Carola. Paisagem com dromedário. São Paulo: Cia. das Letras, p. 12
Nenhum comentário:
Postar um comentário