terça-feira, 30 de março de 2010

Alagamento

Estive hoje no transito caótico durante o temporal e claro, deparei-me com diversos pontos de alagamento. Passei por muitos deles sem ter consciência do quanto a água poderia afetar o motor do meu carro. Regrinha básica: engate a primeira, respire fundo e vá com calma.
Quem dera transferi-la ao meu coração. Antes de seguir, gostaria muito de poder sair do carro e medir a profundidade em que meu veículo poderia atravessar. Tomada pelo impulso desejei atravessar o grande lago que se formou naquele cruzamento, mas ao ver de longe carros maiores do que o meu enguiçando, resolvi mudar o curso e fazer uma conversão proibida.
Se pudesse voltar atrás, se pudesse desfazer as fantasias que se enredaram em minha mente, talvez não teria meu coração bloqueando o cruzamento da altoestima, muito menos imerso nestas lágrimas que já não pedem mais licença para escorrer: transbordam simplesmente.
Quer situação mais ridícula do que enfrentar um alagamento sabendo que não poderá atravessá-lo? Assim como temos impulsos para a defesa de nosso patrimônio ao fazer manobras arriscadas ou proibidas, deveríamos também cuidar um pouco mais dos nossos sentimentos.
Consegui chegar em casa após o congestionamento e uma parte de mim ficou perdida em algum lugar por aí.

terça-feira, 23 de março de 2010

Contabilizando

Vivo em alguns metros quadrados. Trabalho a poucos quilômetros daqui. Meu restaurante favorito está mais distante do bolso do que de minha casa. A música que desejo ouvir agora depende apenas da velocidade de minha conexão para que possa tê-la em meu acervo. Dois travesseiros e fronhas limpas são o suficiente para me deixar confortável. Depois de 15 anos vivendo num mesmo espaço, resolvi contar os azulejos do box para não pensar em mais nada enquanto tomo banho. Tive a oportunidade de conhecer mil histórias vividas por uma só pessoa e mil pessoas que não foram capazes de dizer nada sobre elas. Às vezes tenho a sensação de que sou a última a acreditar na transparência dos atos e a primeira a esquecer o quanto dói não ser retribuída. Já pensei em inventar uma máquina que pudesse calcular a intensidade de minhas paixões, assim não investiria meus pensamentos às cegas correndo o risco de sofrer decepções. Três latas de cerveja são capazes de me provocar ressacas profundas. Pergunto-me se a força do pensamento é capaz de provocar arrepios em outra pessoa. Já viajei trinta horas para desfrutar da luxúria, pura e simples, por vinte e quatro. Esperei dez anos para que o "verdadeiro amor", concebido ainda na adolescência, batesse à minha porta. Caminhei mais de 80km ininterruptamente em busca de paz, mas só a encontrei tomando alguns analgésicos para dores musculares. Contabilizei a profundidade dos abismos que me separaram das pessoas que elegi para amar; aprendi que se permanecer por muito tempo no escuro, perco as referências e não consigo chegar do outro lado: ambos devem se esforçar para superar a distância. Não fui necessariamente bem sucedida nas poucas tentativas que fiz, mas já penso em fazer um curso rápido de engenharia para construir todos os tipos de pontes. Se há algo mágico na contagem do tempo, esta seria a repetição dos algarismos, 23h23, é o melhor minuto do dia e não sei dizer o por quê. Três gotas do meu perfume favorito preenchem minha autoestima muito melhor do que o manequim reduzido. Já li um livro inteiro em uma só noite e até hoje, este mesmo livro ainda é referência para preencher o vazio de quinhentas outras. Estou há dias contabilizando tudo o que possa passar pela minha mente e não tenho resposta para uma única questão: quanto tempo levaria para explicar a real importância de determinada pessoa em minha vida?

domingo, 21 de março de 2010

Domingo

Acordei hoje com aquela sensação boa que os sonhos deixam. Busquei uma posição confortável entre os lençóis e travesseiros para que pudesse lembrar do enredo, das personagens e dos diálogos para que esse prazer se prolongasse por mais alguns minutos.

Permaneci estática, vasculhei a memória mas não encontrei nada. Quando desejamos prorrogar o início do dia não se desiste tão fácil: optei pelas cenas reais.

Um intenso monólogo, olhares furtivos, ouvidos atentos aos instrumentos que se revezavam, mãos que dançavam e descobriam timidamente o palco dos corpos.

Sem ensaio nem coreografia, apenas dois expectadores.

Este prazer desfrutado com tamanha intensidade foi tão etéreo que já se confunde aos sonhos de uma manhã de domingo que não quer começar.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Feto exposto

Estou muito longe das habilidades monumentais de um poeta, mas hoje sinto o abismo de dor que todos eles sentem. Uma dor estéril, venenosa e auto-destrutiva.

Queria agora tomar emprestada as tintas e pincéis de Lasar Segall para pintar a agonia cinzenta de um sonho que perde vida assim como aquela criança morta cuja mãe insiste em aquecê-la sob os traços desfigurados de Picasso.

Abandono o tempo e o contratempo da dança porque esse nó em minha garganta indica um movimento único: o de posição fetal. Um feto que não está protegido, não tem consolo ou abraço. Não há luz, não há som, não há alimento.

A Canela poeta, pintora e dançarina é estéril. Está morta.