quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A internet, o escurinho e o bêbado

Ser chamado de louco a todo momento pelos amigos e familiares é uma coisa, outra bem diferente é reconhecer em suas atitudes que algo não anda muito bem. Tinha um compromisso marcado para as 22h30 na Vila Madalena e como é de costume, estava enrolando para sair de casa, pois a internet e todos os seus recursos de interatividade muitas vezes são mais interessantes que o trânsito. Para minha sorte (ou azar?) acabou a luz em meu bairro. Automaticamente peguei minha bolsa e documentos e saí de casa. Imagina que ficaria aqui. literalmente sozinha?
Imaginava que a falta de energia fosse algo bem pontual, mas à medida que me distanciava de casa e nada de enxergar a luz que não fossem dos automóveis começou a me deixar preocupada, mas voltar para casa não era algo que nem passava pela minha cabeça. Queria saber até onde esta escuridão teria fim.
Para minha tristeza, não teve fim! Cheguei até o local combinado após ter ultrapassado cruzamentos imensos com a ajuda de caminhões e ônibus – quem tem coragem de fechar um automóvel deste tamanho? – pois meu carro, de tão pequeno que é dificilmente imporia um pouco de respeito aos demais nesta guerra declarada entre os automóveis.
Estacionamento fechado, pessoas nas ruas e o silêncio. Celular? Nada de sinal, seria a minha operadora ou a dos outros que não vive? Respondi esta pergunta quase que imediatamente, meu celular tocou. Era uma amiga que mora a 20km de minha casa dizendo que por lá também não havia energia elétrica e havia rumores de que em outros estados também sofriam com o blackout.
Que droga! A gasolina que havia no meu carro não seria o suficiente então para saber até onde esta escuridão acabaria. O jeito era voltar pra casa e me conformar com o silêncio dos meus pensamentos.
Entre um cruzamento e outro, pensei em coisas absurdas e gargalhava: “E agora? Quem vai twittar o Apocalipse?”, “Quem escreverá um post sobre o que sentiu e em quem pensou em seus últimos minutos de vida?”, “Qual será a manchete de amanhã? Haverá manchete? Haverá jornal?”.
Depois do surto, a dor. Enquanto todos desejavam largar o que estavam fazendo para se recolher, por que é que eu estava fora de casa, mesmo? Antes de voltar, fiz outra loucura, percorri outros tantos quilômetros de uma ponta da cidade à outra, atravessando túneis, pontes e viadutos para apreciar o estranho vazio de São Paulo, as luzes dos carros que cortavam as marginais e também refleti sobre nossa fragilidade. Tantos pedestres desejando atravessar uma simples avenida, mas não o conseguiam. Primeiro porque não havia semáforo obrigando o motorista a parar, segundo que para enxergar um pedestre, só se ele estivesse sobre o capô de seu carro e olhe lá.
Quando me dei conta, estava em frente a casa “daquele que não deve ser nomeado”. Ligar não adiantaria, àquela hora já estava sem rede. Tocar a campainha? De forma alguma! Gritar o nome e bater palmas no meio da calçada como os meus antepassados? Nem pensar! Tudo isso passou pela minha cabela antes mesmo de reduzir a marcha, passei direto. Se morrer agora, sei que estive a poucos metros daquele que me faz inteira e feliz comigo mesma.
Antes que cometesse mais alguma loucura, decidi tomar as rédeas e guiar meu carro – que parece ter mais vontade que eu – para casa.
Já que estava na rua, o próximo desafio agora seria o de encontrar algum lugar para comprar cigarro. Bem perto de casa havia um posto de gasolina que funciona também como boteco. Pelo movimento ali, parecia que nada havia acontecido na cidade inteira.
Fui abordada por um bêbado, pedindo alguma moeda para olhar meu carro. Já dei cinqüenta centavos para que ele não continuasse baforando na minha cara.
Dentro do estabelecimento, lá estava o bebum. Ele não devia estar “olhando” meu carro? “Dá um cigarro de vinte e cinco centavos e uma dose de pinga” – falou o mal cheiroso. De cara retorcida e impaciente, o atendente respondeu: “A dose de cachaça custa R$ 1,50! As moedas que me deu não são o suficiente.
O surto de gargalhadas retornou. “Que cachaça cara é essa, minha gente?” O fim do mundo está próximo e o homem vai negar uma dose da branquinha a alguém? Mas o bêbado me surpreendeu, tem um poder de persuasão e negociação sob altas doses alcoolicas. Uma moeda de R$ 1,00 comprou um cigarro e uma dose de 0,75 centavos de pinga. Enquanto pagava meu cigarro, vi o infeliz dando seu trago e bebericando sua marvada como se fosse uma bebida rara e sofisticada, porém, num copo descartável.
Hora de chegar em casa, tomar também da minha branquinha, fumar meu cigarro e adormecer. Se houver o dia de amanhã, faço questão de escrever. Se houver energia elétrica, compartilho com os leitores virtuais minha desventura na escuridão.

2 comentários:

  1. “daquele que não deve ser nomeado”???....rsrs...ADOOOORO...
    Postagem legal...acho q todo mundo pensou no apocalipse....kkkkkkkkkkkkkkkk

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  2. Acho que tu ariscou,foi apenas um apagão
    sair de casa numa cituação dessas é procurar
    encrenca...quantas pessoas gostariam de estar em casa,longe do caos...
    Eu num primeiro momento fiquei me sentido só
    sem a compania virtal dos amigos...
    Acendi uma vela,e acredite comencei meditar
    de maneira espontanea, acho que a ausencia de
    eletricidade a minha volta,me deixou em uma
    tranquilidade incomum...
    Aquela chama tão simples,impinotisou minha atenção quase que o tempo parou... rsrsrs
    Depois de alguns instantes me senti muito bem
    Apesar de minha anciedade,fui dormir muito
    feliz,apesar de saber de milhões de pessoas
    presas em metros e trens,agradeci a esperiencia
    espiritual...
    Estar só é um desafio hoje em dia,precisamos de outras pessoas para nos tirar da compania de nos mesmos...acho que isso dificulta uma conciencia mais ampla do que somos,e como
    vivemos loucamente afobados,alienados
    de nós mesmos.
    Imagine se algumas vezes por semana,desligar
    por algum tempo,nossos aparelhos,fize-semos
    uma parada total para alcalmar a agua da alma
    poder refletir livremente sem estimulos externos,quão benefico para o planeta em termos
    de cossumo,reflexão para as pessoas...nós debatemos em um jogo cruel do sistema atual de ausencia de espiritualidade,já possuimos muita tecnologia,agora acho que falta um pouco de humildade para podermos ser mais coerentes em nossa jornada neste planeta incrivel...

    lucchi

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