sábado, 25 de agosto de 2012

Hipótese

"É muito bom te inventar. Nasces do nada porque eu assim quero. Do nada, vens, mas te transformarei. Verás, Te transformarei em algo que ainda não sei por que desejo. Te transformarei no ser que sou e formaremos um ser uno e indissolúvel. Plasma.

É muito bom te amar enquanto hipótese somente. Nada sei de ti. Aliás, o que sabemos de nós ou dos outros? É como hipótese que te amo até o dia em que, soprando docemente em teus lábios, te trarei à vida.
Tenho sede de ti, tenho sede de mim, tenho sede de nós. Venha. Não temas. Do instante em que te concebi em minha mente, já sabia que vinhas para realizarmos o grande mistério do amor. Quero-te mais que a mim.

E só existes no campo das possibilidades. Quero-te abstrato, abstrato é tudo.

Vou te dizer um grande segredo, mas não digas a ninguém. Falarei assim, sussurrando e devagarzinho: a vida é uma grande mentira. Não me crês? Mas se não nasceste ainda, como sabê-lo? Eu afirmo, pois já nasci, então sei: a vida é só uma ilusão. Algum louco a inventou e nós de delírio vivemos. Verás. Eu te mostrarei a cada passo, a cada manhã que viermos a caminhar juntos. Não te arrependerás de teres vindo. Nem eu de ter te inventado. Viver pode ser bom. Às vezes. Nos instantes de pura fantasia, é sublime.

Nos instantes em que dois formam um, é loucura, fantasia, mistério, inventados pelo louco do qual te falei.

Agora, basta, quero-te matéria.

Quero-te aqui."

SILVA, Rosário Nascimento e. Notas sobre o abismo. Porto Alegre: Dublinense, 2012, p.99-100

segunda-feira, 5 de março de 2012

Conta tudo!

Sem entender muito bem o por quê, tentei aplacar tua desilusão num abraço. Olhei diretamente em teus olhos na esperança de que você reconhecesse a tua dor na minha. Depois disso, você disse que gostaria de saber a minha história. Senti uma pontada, um susto, paralisei... Me dei conta de que ninguém havia se interessado abertamente pela minha caminhada até aqui. Se houvesse tempo para um café, se não estivesse tão embriagada e sensível naquele momento, talvez teria contado sim. No entanto, fugi...

Não que me envergonhe do que fiz, pelo contrário. Eu só pensei em como seria contar de todos os tropeços de uma forma que as minhas decepções não nos contaminassem no presente. Foi então que percebi que lembranças alguma é capaz de assumir novos formatos. As minhas são tristes e se não fossem assim, seriam outras. O que muda, talvez, é o jeito que se olha para elas hoje.

Depois que nos despedimos, foi impossível não revisitar algumas memórias, numa tentativa de checar toda a bagagem para ver se elas ainda estavam lá... E sim, estavam! Tinham uma nuance menos densa, mais leve... Talvez esteja pronta para contá-las, não sei. Por que isso é necessário agora?

Acho que este seria um exercício excelente para que eu não cometa os mesmos erros. Lapsos que percebo que já estão a caminho e desejo corrigir o quanto antes.

E você? Qual é a sua história?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pare de tomar a pílula!

Ser tratado como opção não é de deixar qualquer cidadão feliz. Pelo menos os cidadãos ditos "comuns". Dizer que se sente pressionado para assumir um relacionamento pode ser visto de diversas formas. Geralmente vemos isso como uma absurda insegurança de uma das partes, mendicância, autoritarismo e desrespeito pelo espaço e tempo do outro. Sei que fui acusada e julgada por tudo isso aí, mas ando tão tranquila e vejo tudo isso de forma absolutamente inversa. A gente só percebe que expulsou boa parte dos nossos demônios em situações como esta. Apesar de ter me sentido magoada por alguns instantes, não pretendo mais sofrer com a indiferença, pelo menos a tua, não. 

Acho engraçado como todo mundo está disposto a pedir o tempo e a compreensão alheia. Mas, e a minha? Quem vai se dar o luxo de ceder uma parte de seu tempo para entender a minha versão da história? Como disse anteriormente, tudo é uma questão de ponto de vista. Lembra? Já falamos sobre isso. Entenda uma coisa: já tomei tantas vezes no cu, já me rebaixei tanto acreditando que se fizesse determinadas coisas, seria capaz de ter o amor do outro e nada disso deu certo. O mínimo que essas pessoas puderam contribuir foi com o fato de que eu deveria me dar um pouco mais de valor. Acho que tá dando certo, pois dificilmente alguém me tira do eixo. Seguia essa premissa - com alguns tropeços, claro! - até você chegar.

Sabe o que te diferencia dos demais? Você só ultrapassou algumas das minhas barreiras porque foi muito bem recomendado, porque demonstrou atitudes dignas, sensíveis e honestas. Sinceramente? Eu teria orgulho disso em vez de me sentir pressionada. E eu? Eu me senti segura diante de tuas atitudes... Se houve algum excesso meu aqui, vou dizer o que foi: excesso de segurança! 

Você chegou e me conheceu exatamente como sou. E não me furtei de mostrar o que posso ter de mais terrível e amável ao mesmo tempo: a intensidade dos meus sentimentos. Se for pra ser blasê, uso meus dedos... Ao menos não fingirei orgasmo, nem terei de tolerar mau hálito de ninguém. Entende o que quero dizer? Enquanto muitos não conseguem abrir mão dos próprios métodos, feridas e antecedentes, eu estou aqui: com cicatrizes enormes (ainda, infelizmente...), mas pronta para amar e ser amada novamente. Talvez não seja necessário dizer isso por parecer piegas e te causar certo desconforto. É eu sei que você evita sentimentalismos, mas eu tenho que dizer: eu ACREDITO que é possível amar quantas vezes forem necessárias. Uma vida sem quebrar a cara, sem sofrer, sem conhecer outras pessoas, comportamentos, sem decepções parece uma vida pela metade! De que vale eu passar tantas semanas num terapeuta passando a limpo minhas velhas experiências se eu não puder verificar se aprendi algo vivendo novas histórias? 

É claro que não vou atirar meu coração (nem minha buceta) ao primeiro que passar. A vida nos ensina e "selecionar", a identificar o que pode valer a pena ou não, arriscar. Entende agora que, ao invés de se sentir encurralado, devia se sentir lisonjeado? Paixão? Existe muita aqui dentro. Mas antes de ela ser tua, é minha. Os sentimentos, antes de mais nada, me pertencem; e agora tudo depende de como resolvermos esse impasse.  Se for capaz de entender nossas diferentes maneiras de enxergar o mundo, talvez esta história não se encerre como num aborto, nem nasceu! 

Outra coisa que você talvez não saiba: o meu pior defeito é o de acreditar nas pessoas. Não importa o que disser, não importa o que fizer, acreditarei em você. A vida já me mostrou que gastamos um tempo totalmente inútil desconfiando do comportamento de outras pessoas. Acredito na minha intuição, acredito que nada, nem ninguém entra em nossas vidas por acaso. E se elas não permanecerem, tampouco será acaso. Uma oportunidade imensa para praticar o desapego, não acha?

Estou pronta. Se não estiver, tudo bem. Ainda acho que amigos são tão (ou mais) preciosos do que trepadas carinhosas logo pela manhã. Embora goste muito disso também.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Raio X - Caminhada

Subo esta rua, desço as escadas, caminho por aquela avenida, subo outro morro, desço virando a esquina, passo em frente à padaria, compro um suco, passo em frente daquela casa legal, desço outra rua, subo novamente, cheguei! Percurso feito. Coragem. Atravessar a rua. E essa gente toda me encarando? E essa música horrível que não cessa? Eles não se cansam disso? Aqui é mais escuro que imaginava. Era o caminho que fazia à escola. Esses degraus parecem menores agora. Não é hora de chorar. Estou no meio da rua, que vergonha! Não, você não vai chorar. Você devia passar mais vezes por essa praça, há muitas lembranças da infância guardadas aqui. Nossa! Foi aqui que me jogaram ovo no meu aniversário. Bem aqui! Doze anos, acho que foi isso. Sexta-série. Vergonha! Ah! Aquele banco! Fabiano, meu primeiro beijo. Lindinho, tímido... A biblioteca que frequentava. Os livros emprestados com frequência, "Toda a Mafalda" era o favorito. No auge dos 12, 13 anos de idade eu tinha maturidade suficiente para entender o sarcasmo e o contexto político das tirinhas do Quino? Acho que sim... Ou não? Aqui havia aquela loja, cujo dono parecia ser um tarado. Lembro das roupas que namorávamos na vitrine antes ou após as aulas. Ele nos olhava, pedia para entrarmos para "experimentar" e ver se ficava bom. Tive nojo dele, desisti da compra. Deixei de gastar os R$20,00 que havia juntado por algum tempo. Não sei se esse terminal de ônibus me ajudaria muito naquela época, mas ficou imponente aqui. Só havia mato! Esse foi o final de semana de reencontros. Acho que vou passar na casa dele. SMS: "Está em casa?". Não respondeu. Deixa pra lá... Não vou interromper o ritmo. Mais forró, quanta gente feia reunida! O que faz essa mulherada acreditar que um cara com um carro lotado de caixas de som e um péssimo gosto musical poderá acrescentar à vida delas? É... talvez elas ainda sejam mais felizes que eu, pois não precisam pensar sobre isso. Tenho medo de atravessar essa ponte. Este cruzamento aqui é perigoso, ninguém respeita os pedestres. Já sonhei algumas vezes com esta ponte... Não foram bons sonhos. Agora é subir! Já assisti uma palestra nesta escola, quando tive a minha primeira sala de aula na Prefeitura. Faz algum tempo. Não lembro de nenhum nome dos que foram meus alunos naquele ano. Tinha aquela velha difícil, queixava-se constantemente de enxaqueca, pois, dizia ela, apanhou demais com o cabo de enxada do pai na cabeça, por isso não conseguia aprender "as letra", "juntar as letra"... Isso já faz tempo. Caminhávamos nestas ruas todas as tardes de domingo praticamente. Ela queria visitar aquele paquera, passar em frente ao portão dele. Víamos alguns colegas de classe voltando com as chuteiras amarradas nos calcanhares, sem camisa. Alguns pelos pubianos nasciam. Eu tinha vergonha de vê-los daquele jeito. Ah! Que calor! Padaria... nossa, que rápido! Farei isso mais vezes. Meu primo na esquina. Finge checar o celular para não acenar ou dar boa noite. Que ridículo! Enfim... acho que consigo repetir a dose amanhã. Às sete, já que acabou o horário de verão. Promessa de ano novo!"