sábado, 25 de fevereiro de 2012

O gato que tem medo de água fria

- Posso contar com você?
- Claro que sim!
- Que bom, sei que estou em falta ou não correspondendo, mas tem coisas que eu gosto em você.
- O que, por exemplo?
- Muita coisa. Falamos pessoalmente, ok? Só queria ser honesto com você e que não achasse que não ligo ou não me importo.
- Fique tranquilo! Você já me deu motivos suficientemente bons para mostrar que se importa.

Ainda não sei dizer de onde veio essa segurança toda!

Depois de algumas horas, reli esta sucessão de frases e percebi que não vai passar de um diálogo que precede um pé na bunda. Deve ser por isso que o estômago não parou de reclamar nesta última semana. ainda não sou capaz de entender essa minha dualidade: num momento manifesto-me intensa, segura e pronta para o que der e vier, noutro sou dor, náuseas e algo que não consigo compreender, digerir... Parece aquele velho ditado popular que fala do gato que tem medo de água fria. Como posso cindir meus sentimentos e colocá-los em lados tão opostos?

Vasculhei minha modesta coleção de músicas por aqui e não encontrei nenhum registro, letra ou melodia que possa abraçar esta sensação. Queria que essa alegria e espontaneidade me fossem favoráveis neste momento. Estou tentando, mas o exercício está pesado e o caminho para a auto-estima ainda me parece distante e confuso.

Esse hiato me assusta, me corrompe e faz entender que nada parece mudar de fato em nossas atitudes. O que muda é o jeito de olhar pra isso tudo. Mesmo assim, não enxergo nada!

Se ainda puder encaminhar um desejo às estrelas, este desejo se chamaria surpresa. Desejo ser surpreendida (por você e por mim). É possível?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Embrulho

Eu tinha certeza de que havia me despedido de você e que nada do que fizesse poderia me causar algo além de náuseas. Veja só como é a vida! Não importa quantas voltas a Terra possa dar em torno do Sol, teu sorriso sarcástico e olhar caído após dois ou três goles de whisky permanecerão os mesmos e eu... Eu ainda não sei o que fazer com esse embrulho pulsante no meu peito. Talvez você não o tenha rejeitado à toa, ele não deverá pertencer a outra pessoa que não seja eu mesma... Será?

Às vezes eu me atrevo a abrí-lo. Sabe como é, né? Se somarmos pessoas com ansiedade extrema e a falta de ocasiões para se presentear alguém, não hesito em desfazer essa fita. Sinto o quanto está vivo e íntegro os sentimentos alí reservados e torno a embrulhá-lo com todo cuidado; faço o possível para que o embrulho  latejante ainda tenha uma aparência dígna e atraente. 

Por algum motivo, ainda há um espaço vazio em nosso diálogo. Eu sorrio, você sorri... Eu peço um trago do teu cigarro, você pergunta como vão as coisas, mas não consegue ouvir o que tenho a dizer: "Eu estou muito bem! E vejo que você também está... Está bem acompanhado!". Admiro essa tua capacidade de se envolver tantas mulheres, gostaria de saber que gosto tem isso. É bom ser tão sedutor assim? 

Li hoje numa das primeiras frases de um livro que  "o problema não são os erros, o problema é o teu olhar. Os erros não se diferenciam dos acertos. Não têm sentido em si. O problema é você, que não é capaz de dar-lhes outros significados".*

Você não tem ideia do quanto isso fez sentido pra mim. Essa história de ressignificação dos objetos, situações e pessoas é muito mais honesto com nossas almas do que carregar o peso (por vezes mal-cheiroso) das nossas faltas. Já não me sinto culpada por ter me rebaixado à puta em tantas situações em que estivemos juntos. Entendi que depois de te ver tão belo (e levemente bêbado), não haverá motivos para sentir-me nauseada. Teu nome ou tua presença será sinônimo de superação, reencontro e - creia! - amor-próprio!

Artistas plásticos, fotógrafos, cineastas e historiadores entendem o significado do ângulo, dos planos, das cores e formas, da profundidade e consistência, do foco ou dos recortes...

Hoje entendi que meu melhor presente, minha melhor intenção, meus maiores medos não pertencerão a mais ninguém antes que eu os reconheça ou ressignifique como meus. Antes de ser de qualquer outro alguém. Basta não esquecer do básico: o OLHAR.

* SAAVEDRA, Carola. Paisagem com dromedário. São Paulo: Cia. das Letras, p. 12 


domingo, 29 de janeiro de 2012

Boa noite e boa sorte!

- Sou tua amiga. Você sabe que pode contar comigo, né?
- Hum...
- Então, soube de alguns comentários ao seu respeito. Mas é fofoca, com certeza.
- O que foi dessa vez?
- Ah. Te conheço, você não seria capaz...
- Então desembucha logo. O que estão falando?
- Ah. Você não vai contar pra ninguém?
- Porra! Estão falando de mim, não sei o que é, e com certeza é para me denegrir e você acha que eu vou ficar sabendo disso e não vou tomar providências?
- Ah. Então não vou falar nada. Melhor assim. Você fica brava por pouca coisa.
- Entendi. Então você acaba de me mostrar que não é "amiga". Não posso contar com você pra nada. Se veio aqui passar adiante a "fofoca" - que já não me interessa mais - dê o fora!
- Creeeedo! Não seja tão radical! Não quis ofendê-la!
- Pois então... Ofensas à parte, acabaste de sair do meu caminho. Boa noite e boa sorte!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Já fui surfista e hoje tenho medo do mar

Quando não se entende como encaramos o fim, ou seja, como fazemos para começar outra coisa que seja depois do fim, nosso desejo imediato é repensar o começo. Foram tantos finais! Tantas histórias que de começo, nada tiveram. De fato, só existiram em minha cabeça. Todas elas começaram como eu desejava e terminaram sem que percebesse. Ainda guardo um pedaço, um cheiro, um som... até o calor do sol sobre a pele... Isso ainda me faz recordar, mas não me faz viver.

Certo dia me deram um exemplo. O  do surfista que amarra suas pranchas ao tornozelo, enfrenta as ondas, toma belos caldos, perde sua prancha, mas aquela fita amarrada ao tornozelo permanece. Assim ocorre sucessivamente até que seus pés se encontrem lotados de fitas sem utilidade, impossibilitando-o de fazer qualquer manobra mais ágil. Os restos das pranchas sobrepostas e apertadas aos tornozelos impedem o laçar de outras novas. O surfista resolve então se aposentar. Senta-se em frente ao mar, emociona-se com as ondas, com a agilidade que outros ex-companheiros ao se divertem e dominarem a força da gravidade, das águas... Mas os restos das pranchas presas aos seus pés o impedem de caminhar, de voltar ao mar. Ele tem medo de retirar o que objetivamente não serve mais. Tem medo de abrir mão das lembranças, das ondas, da adrenalina que foi arriscar-se. Suas pranchas, apenas o que sobrou de suas pranchas, são testemunhas de suas vitórias e fracassos. O que está preso em seus pés são os únicos que podem depor toda a verdade. Tirar isso dele, seria abrir espaço para o devaneio, para a fantasia. Quanta bobagem! Na verdade, do que esse surfista tem mesmo medo é de encarar a própria pele sob tantos farrapos. Há feridas! E elas não foram causadas pelos acidentes, pelo rompimento, pela perda das pranchas ou pelo próprio mar. Feridas só persistem porque foram falsamente curadas. Foram encobertas!

Perguntei a quem me deu este exemplo do surfista (eu jamais pensaria numa coisa assim!), como poderia começar a cortar esses laços, estes apêndices que não fazem outra além de provocar dor e paralisia. Não obtive uma resposta concreta. Meu desejo sincero neste momento é o de olhar nos olhos de cada um que se foi e pedir perdão. Perdão por ter falhado, por não ser o que esperavam que eu fosse. Mas ainda acho que isso não é o suficiente. Sei que é necessário também perdoar. Há tantos nós que ainda me sufocam, me paralisam. Não sei por onde começar. Também não sei se estou pronta para me ver despida de sofrimento.
Se pensar no exemplo do surfista, parece que já me esqueci da sensação de brincar no mar, de me sentir envolta, embalada e acariciada por ele. Há um peso e eu não sei como esvaziá-lo.