quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Maçã ou beijo?

Desejo entender se, por acaso, estive dormindo nos últimos três anos ou, com um milagroso beijo de realidade, estive acordada. Assim como toda criança, cresci rodeada pelos contos de fadas. Talvez este seria um caso a ser estudado pelo viés da Cinderela, sei lá!

Adormeci ou despertei? Ainda não sei se mordi uma maçã envenenada ou recebi um beijo. Mas sei quando tudo isso começou: foi na vigésima quinta volta do planeta Terra em torno do Sol após o dia em que o ar entrou em meus pulmões pela primeira vez.

Ufa! Seria mais fácil dizer que foi na comemoração dos meus vinte e cinco anos, não? Não!

Considero muito tênue a linha que separa o linguajar poético da breguice explícita. E se pretende continuar lendo isto, fique sabendo: sou brega assumida! Tão brega que assumi um ritmo afro-caribenho, para ser o meu suporte, minha (quase) religião nos dias que se seguiram após o meu aniversário. Isso foi muito claro para mim, o problema foi entender que não poderia ser facilmente aceito entre os que me rodeavam.

Não me atrevo a compreender muitas coisas ou pessoas, mas as poucas que me provocam, são viscerais! Quase morri quando perdi duas delas ao mesmo tempo. O que me manteve viva foi o sabor de um ritmo e a possibilidade de enxergar meu mundo de outra forma.

Só não sei se permaneço acordada ou dormindo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pintando lesmas

É como uma lesma passeando sem direção. Deixa aquele rastro gosmento e me causa náuseas! A vontade é de caminhar livremente, observar e também causar algum tipo de admiração por onde passar. Assim como fazem as borboletas. Quem dera!

Quem dera ter a certeza de que ao me refugiar em casulo, houvesse a certeza de que criarei asas. De que poderei transitar, impactar e reproduzir este milagre. Sepultar o rastro.

Muito estranho este fenômeno. Enquanto me adaptava à nova condição - a de lagarta saciada e pendurada de cabeça para baixo - pintei um quadro: cada pincelada tomou forma com estas mãos. Era um rastro colorido cheirando a tinta fresca. Causava-me orgulho. Criei algo que pudesse me dar conforto nos dias de reclusão, um mapa que me desse direção.

Eis que o casulo se rompeu. Em vez de borboleta, virei lesma. E a minha tela um borrão asqueiroso.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Octoalegoria

Soprou teu convite oito vezes e eu só aceitei o último. Estava em luto nas outras sete tentativas: estava surda! O oitavo foi diferente. Ao acordar de um sono profundo, no dia 8 de março, um lembrete: "Seque os olhos!". E assim o fiz, paulatinamente. Desde então, o exercício diário era o de regar pensamentos que floresciam, dar cor aos desejos - antes vestidos de negro - e movimento a um borboleteio que jamais ousara dançar.

Dar-me por satisfeita com o convite não era o bastante. Havia a necessidade de me aproximar e entender as razões daquele anfitrião insistente - por vezes arrogante -, mas caminhava na Praça da Sé. Entre solfejos, juntei todos os trapos de coragem, costurei-os com fios de esperança e fui para a sua festa vestida de colcha de retalhos, nada mais. A mistura de sons e sotaques fazia daquela festa  atemporânea! 

Enfeitada de mim 
e sem ilusão para desfigurar,
brinquei de roda fingindo

Sendo esta mais uma alegoria da vida, ela não deve ser perfeita: havia um pingo sem i. A  alegria vivida naquele ambiente era ameaçada pelo embargo dos surdos, quase vi a morte das noites de loa ao luar. Assisti ao olhar cinza do dono da festa. Logo agora que passei a acreditar que amor não deveria dormir! 

Por sorte, aquele anfitrião adora uma farra e só precisava se recolher brevemente. A festa não acabou e não acabará enquanto ele deixar fluir novas cores de seu bandolim. Se hoje estou aqui contando tudo isso é porque eu cri, por ele crer.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A cena

É a cena mais patética de todas. Coisa mais ridícula de se fazer e pior, assumir publicamente que a fez.  Algum analista poderia chutar, imediatamente, algum transtorno de alguma coisa ou o distúrbio de não sei o quê. Sua mãe já mandou aquela velha benzedeira - a mesma que lhe causava náuseas ao esfregar aqueles galhos de arruda e manjericão na sua testa quando era criança - ver se, por acaso, a coitada sofre de algum mal-agouro, quebrante, macumba ou encosto. Nada feito! Confessar teus pecados regados de luxúria e ambição à um padre não lhe renderiam lugar algum no Paraíso. Não há arrependimento. A cena, é de uma melancolia tão viciante que nem em sonho atreve-se a invertê-la. A cena é patética, porém, foi desta forma que guardou o que é mais precioso em seu coração.