quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Defeito de Fábrica

Entro no MSN agora e vejo que a mensagem pessoal de um dos meus contatos é esta: "
O PERIGO DO SEXO É QUE VOCÊ PODE SE APAIXONAR, O PERIGO DO AMOR É VIRAR AMIZADE...". Exatamente assim, com todas as letras maiúsculas, chamando a minha atenção de imediato.
Reuni alguns argumentos masculinos e femininos adquiridos com o tempo, muitos deles de amigos bem próximos, tomei fôlego e já vou esparramar o verbo aqui, já não dá mais para segurar: Quem foi que disse que é proibido se apaixonar ou ser amigo de alguém? Há ser humano na face da terra que encare um parceiro apenas como um músculo para estimular seu clitóris, induzí-la ao orgasmo e nada mais? Há por acaso a possibilidade de amar alguém sem ser amigo desta pessoa, ter um mínimo de envolvimento com os problemas dela, ouvi-la quando necessário e vice-versa?
Podem pensar aí que vivo num conto de fadas, que isso não existe neste mundo pós-moderno e que tudo é uma questão de momento. Assim como um resfriado, vem e passa? Que venha a próxima mudança brusca de clima, minha baixa imunidade, algumas aspirinas ou complexos vitamínicos e está tudo certo.
Quem inventou estas convenções? Qual foi o matuto que implicou estas regras a esta nova geração? Retire de mim todas as teorias anarquistas, religiosas ou feministas. Não sou vegetariana, bebo álcool, não sou pudica, gosto de sexo e falo isso livremente. Mas venha cá, alguém há de concordar comigo que não há como enxergar o sexo masculino somente como um pênis ereto e tampouco o feminino dotado apenas de orifícos (use-os como bem desejar, claro!).
Por que esse medo de se arriscar? Por que tantas regras e dicas para se manter frio e distante do outro? Se sexo é bom para ambos, porque não se permitir à entrega, à intimidade e, consequentemente à paixão? Se conseguiram ultrapassar esta difícil barreira e resolveram chamar estes encontros dos corpos e mentes em amor, diga-me com todas as letras por que é que a amizade não pode entrar aí?
Juro que já procurei o botão para desativar todas estas sensações e questionamentos, porém não encontrei. Fui concebida assim, com defeito de fábrica! A escolha para muitas mulheres é: fique solteirona e amarga ou finja belos orgasmos e tente ser feliz com as migalhas que te oferecem. Para os homens, nada mais justo: use e jogue fora ou seja chamado de gay, fresco, lerdo, etc.
Eu, conformada com minhas imperfeições e adepta de algumas mudanças no senso comum defenderei a inclusão dos portadores de necessidades especiais afetivas. Alguém deverá ceder, alguém deverá repensar suas atitudes. Mesmo os que não possuem "botõezinhos de fábrica" merecem seu espaço.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobre Luz, insetos, predadores e uma certa ponte

Desde que seu nome foi pronunciado pela primeira vez, sabia que se tratava de um anjo bom a me guiar. Relutei e acreditei ser impossível aproximar-me de tua luz e sabedoria. O tempo passou. Permaneci entre os que tinham mente mediana, aspirações e sentimentos ainda muito comuns. Desejava queimar minha retina diante de tua luz ao mesmo tempo que meu gélido coração permanecia estático e temeroso, como um inseto fingindo ser outra coisa para não ser capturado.
Dei mais alguns passos, volta e meia abria uma fresta para enxergar o que havia do outro lado daquela ponte, volta e meia tua luz ainda distante, porém direta, me chamava. A cada ataque sofrido, perdia alguma arma que utilizava para a minha defesa. Quando já não me restava nada, quando já não havia ninguém por perto tive de escolher: morreria defendendo-me ou buscando aquela luz estranhamente conhecida.
Desafiada pelos mais obscuros anseios e, principalmente pelas gargalhadas dos que me desarmaram sem o menor esforço segui confiante de que a morte era minha única certeza, mas não custaria nada se eu tentasse só mais uma vez... por uma vez mais, sentir o sabor da vida.
Naquele espaço, cujo chão estava coberto por pétalas de rosas vermelhas, senti um estranho calafrio. Já havia passado por aquele lugar em outro momento. Não sei quando. Sei que quando se deseja muito estar perto da luz, não se tem noção do tempo.
Quando chegaste, tive outra certeza: mesmo amedrontada e indefesa, aquele não era o momento de morrer. Aquela luz não me cegou, só me deu novas direções. Mostrou-me caminhos dos quais aquela estreita ponte teimava em esconder. Sem saber ao certo o que me aguardava, sabia que estava dando o primeiro passo. Um passo certeiro.
Nunca mais atravessei aquela ponte com medo. Passo por ela e sempre retorno modificada. Nunca mais senti-me como um inseto. Nunca mais olhei para os predadores com medo e sim com compaixão. Eles deverão guardar sua fome para um outro momento ou contentar-se com os demais que nem sequer vislumbraram outras moradas que não fossem a várzea.

Auto-controle

Pra que controlar o amor ou o ódio se tudo de esvai?
Pra que medir e racionar que são duas coisas que brotam inesperadamente dentro de nós?
Abre esta torneira mulher... não guarde para si aquilo que te faz mal!
Já o amor... também não o guarde, quanto mais ele flui de dentro de ti, mais próxima da paz estará.

Dedicado especialmente à Camomila

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um, cinco, dez

Sou aconselhada muitas vezes pelo Dez. Julgo-me incapaz de atender à todas as expectativas deste número. e confesso que não tenho a menor pretenção de seguir sua sabedoria bucólica, inerte. e pior ainda, previsível.

O Cinco aparece de vez em quando. Um estalo de energia e vivacidade. Uma graciosidade e simpatia. Algo que me faz sorrir e imaginar o quanto isso atrai tanto quem é Dez e, quem sabe o Um?

Agora, sob as cobertas, esperando o sono chegar, penso que é doloroso, inexplicável e impossível deixar de ser Um. Um é o começo de tudo, a simplicidade e o olhar curioso e analítico sobre qualquer evento não enxergado pelo Dez e flertado pelo Cinco.

Soma-se facilmente a outros, assim torna as contas muito mais fáceis. Quando penso que ser Um pode me fazer sentir melhor, vejo que amo outro Um. Apesar de todos os predicados valiosos que encontro, vejo que minha vida só teria mais sentido se me somasse a outro Um. Seríamos Dois, comporíamos o Três. Mas isto não está em discussão agora. Deixa primeiro eu entender o que faria se tivesse a oportunidade viver o Um e suas imperfeições exatas.