domingo, 14 de junho de 2009

Há cura?

Hey você! Sim, você aí de avental branco! Insistiu tanto para que ficasse aqui por horas esperando por um horário em que pudesse, enfim, me atender. Estou pronta! Retire logo de seus bolsos boas agulhas e pinças, quem sabe um bom bisturi também, vai ser necessário, já vou dizendo.

Antes mesmo de fazer as mesmas perguntas tolas e o porquê de eu parar neste prédio frio e mal cuidado, antes de entender de onde tirei forças para subir tantos degraus desta escada sombria até o 5º Andar, peço apenas que não faça rodeios. Se possui mãos de cirurgião, faça valer agora o seu honorável título e retire de uma só vez estas dores que me corroem a alma. Não, não se preocupe, não é necessário chamar o anestesista. Nenhuma dor ou corte será maior do que as que me consomem há tanto tempo. Outra coisa, retire um pedaço do tecido de meu coração para biópsia. Sei que há grande probabilidade de ele endurecer com o tempo, como um grande tumor fétido. Leve-o para análise, por favor. Mas não me impregne com falsas esperanças, desejo a verdade somente. E se ainda tiver tempo de reverter tamanhos traumas e cálculos, peço para que providencie bons e eficazes medicamentos. Mesmo que deva encomendá-los em farmácia de manipulação. Desejo a cura sob medida para minhas dores, nada a mais, nada a menos.

Aproveite que o corte ainda está aberto e retire com sua pinça todas as ervas daninhas que insistem em fazer raiz dentro de minha consciência. Elas me atrapalham quando preciso tomar decisões urgentes e, além disso, tornam-me escrava de outras substâncias das quais meu próprio organismo deveria produzir por si só. Ainda há tempo de reverter esta situação, não é, doutor?

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