Após o diagnóstico feito pelo médico de plantão, representado por uma sigla consultada às pressas em um pequeno livreto de distúrbios psicológicos, senti que ali estaria o meu atestado de fracasso.
De toda a luta, sonhos e planos que carregava até aquele momento, pareciam não ter mais valor algum para mim. Sentia vergonha por não ter conseguido encerrar aquele ciclo. De não conseguir enxergar alguma melhora no desempenho daqueles meninos e meninas.
Dia após dia, tentava através das leituras diárias, transportá-los para locais diversos no tempo e no espaço. Da Odisséia de Homero às Fábulas de Esopo. Independentemente do título ou do enredo, de ser prosa ou verso, desejava libertá-los através da leitura. Conduzi-los a novas histórias, mesmo que fossem contos de fadas ou notícias recentemente publicadas nos jornais.
Quando entrei em tua sala apresentando aquele atestado, não tinha coragem de olhar em teus olhos. Entendia aquilo como um fato consumado e que somente o substituiria por outro formulário para atender à solicitação médica.
Sua maneira de receber a notícia fez reacender em mim a possibilidade de questionar o diagnóstico feito pelo médico. Mas não tive forças para levar àquilo adiante. Questionar significaria retornar àquele espaço onde depositei tanta energia. Aceitei o veredicto, mesmo que provisoriamente.
Tuas palavras e atenção fizeram-me entender que não havia perdido a batalha. Mas que precisava aprender com algumas falhas e retomar as conquistas, de forma que soubesse defender-me adequadamente. Abri mão temporariamente de muitas coisas que gostava de fazer. Aprendi a dominar alguns outros receios que escondia debaixo do tapete e também mandar àqueles que não tinham muito a me acrescentar a “plantar bananeira”, “ver se estava na esquina” ou coisas mais pesadas, se assim merecessem.
Retornei ao trabalho ainda muito fragilizada, entretanto, senti que estava com pessoas que me acolheriam com prazer à nova batalha. O sentimento de que estava “em casa” me deu novamente forças para retomar o posto. Considero-me privilegiada por isto. Apesar de ouvir muitos comentários de outros soldados que participaram em algum momento desta infantaria. Não dei ouvidos. Segui em frente e confiei na possibilidade de que um líder, poderia sim, ser arbitrário se “os fins justificassem os meios”.
Sim, eu pertenço a uma infantaria matriarcal. Nada aqui pode ser decidido, se não passar por teu consentimento. Vejo isso como uma qualidade que poucos líderes são capazes de dominar. Mas não te preocupe. Listar qualidades das pessoas - principalmente quando estão em um patamar hierárquico maior que o nosso - não significa ser “puxa saco”.
Faço questão de registrar os pensamentos que possuo e fazer com que os meus objetos de reflexão tenham consciência do quanto sou grata por pertencer a este exército, do quanto me orgulho de pertencer a uma pequena parcela pensante deste grande sistema que nos consome até a morte com falsas promessas.
Acredito nas pequenas e invisíveis mudanças. Acredito que vou para o campo de batalha, mas os únicos inimigos que encontramos são os nossos próprios medos. Àquela massa de meninos e meninas que citei anteriormente, consome nossa energia ao tentar controlá-los permanece, muitas vezes, cega e surda. Das poucas referências que conseguem abstrair, são grandes conquistas para todos nós. Se souberem usá-las em seu favor ou não, só o tempo poderá dizer.
Repito: orgulho-me de pertencer a esta infantaria, mesmo que não possa tabular os resultados propícios. Aprendi que nestas guerras nas quais nos alistamos, ano após ano, que as conquistas serão sólidas se trabalhadas lentamente.
Quanto ao atestado? Os médicos poderão acrescentar mais duas ou três siglas se assim desejarem, pois prefiro morrer louca a morrer sem esperança de que esta batalha possa ter fim algum dia.
Algumas pessoas são especiais porque são.
ResponderExcluirLutar , lutar lutar pra gente ser feliz.....
Obrigada....lindo e estranho rs...
Nem sei se sou rs...
bjs te adoro