domingo, 11 de setembro de 2011

Aparição amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nosso corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis, ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.


Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.


Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.


Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.


Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?


O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.


Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade

O minuto depois

Nudez, último véu da alma
que ainda assim prossegue absconsa.
A linguagem fértil do corpo
não a detecta nem decifra.
Mais além da pele, dos músculos,
dos nervos, do sangue, dos ossos,
recusa o íntimo contato,
o casamento floral, o abraço
divinizante da matéria
inebriada para sempre
pela sublime conjunção.


Ai de nós, mendigos famintos:
Pressentimos só as migalhas
desse banquete além das nuvens
contingentes de nossa carne.
E por isso a volúpia é triste
um minuto depois de êxtase.

Carlos Drummond de Andrade

As contradições do corpo

Meu corpo não é meu corpo,
é a ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.


Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revólver de assustar,
tornou-meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.


Meu corpo apaga a lembrança
que eu tinha de minha mente.
Inocula-me seu pranto,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos.


O seu ardil mais diabólico
está em fazer-se doente.
Joga-me o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revulsão.


Meu corpo inventou a dor
a fim de torná-la interna,
integrante do meu Id,
ofuscadora da luz
que aí tentava espalhar-se.


Outras vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas células impregna,
do meu mutismo escarnece.


Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que eu não quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor deo meu Eu
convertido em cão servil


Meu prazer mais refinado,
não sou eu quem vai senti-lo.
É ele, por mim, rapace,
e dá mastigados restos
à minha fome absoluta.


Se tento dele afastar-me,
por abstração ignorá-lo,
volta a mim, com todo o peso
de sua carne poluída,
seu tédio, seu desconforto.


Quero romper com meu corpo,
quero enfrentá-lo, acusá-lo,
por abolir minha essência,
mas ele sequer me escuta
e vai pelo rumo oposto.


Já premido por seu pulso
de inquebrantável rigor,
não sou mais quem dantes era:
com volúpia dirigida,
saio a bailar com meu corpo.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 10 de setembro de 2011

Verbos

Sofrer é outro nome
do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.


Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu 
sei o reflexo meu?


Rir, astúcia do rosto
na ameaça de sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.


Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.


Verbos outros imperam 
em momentos acerbos.
Mas que para nomeá-los,
imperfeitos gargalos?


Carlos Drummond de Andrade