sábado, 3 de abril de 2010

Atriz nas coxas

Agora que todos os convidados foram embora, que a embreaguês nos consome e o silêncio nos consola, retire tua máscara de menina e vista a fantasia que mais gosto.

Intensifique e prorrogue. Faça-o como quiser, mas vista a fantasia e a sua personagem que. com exclusividade. terei por mais uma noite. Você tem o controle agora, contudo, não me faça aplaudir sua atuação ao final do espetáculo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Visita inconveniente

Quem disse que quero seguir teu caminho? Nem adianta atordoar meus pensamentos enquanto durmo porque sei bem que, por mais difíceis que as coisas sejam por aqui, manusear tuas armas não me fará melhor.

Tua força pode até me manter sem ação por alguns instantes, mas carrego em meu peito uma ponta de esperança de que poderei fazer o melhor que puder daqui em diante.

Não deposite em mim tua fraqueza e angústia. Não me asfixie, tuas mãos já tiveram força um dia, hoje não passa de vulto fúnebre.

Reconheça tua condição, já esteve por tempo demais a me perturbar. Não tenho pena de ti e não mudarei meus planos novamente. Reconheça tua essência, junte-se aos teus... me deixe em paz!

terça-feira, 30 de março de 2010

Alagamento

Estive hoje no transito caótico durante o temporal e claro, deparei-me com diversos pontos de alagamento. Passei por muitos deles sem ter consciência do quanto a água poderia afetar o motor do meu carro. Regrinha básica: engate a primeira, respire fundo e vá com calma.
Quem dera transferi-la ao meu coração. Antes de seguir, gostaria muito de poder sair do carro e medir a profundidade em que meu veículo poderia atravessar. Tomada pelo impulso desejei atravessar o grande lago que se formou naquele cruzamento, mas ao ver de longe carros maiores do que o meu enguiçando, resolvi mudar o curso e fazer uma conversão proibida.
Se pudesse voltar atrás, se pudesse desfazer as fantasias que se enredaram em minha mente, talvez não teria meu coração bloqueando o cruzamento da altoestima, muito menos imerso nestas lágrimas que já não pedem mais licença para escorrer: transbordam simplesmente.
Quer situação mais ridícula do que enfrentar um alagamento sabendo que não poderá atravessá-lo? Assim como temos impulsos para a defesa de nosso patrimônio ao fazer manobras arriscadas ou proibidas, deveríamos também cuidar um pouco mais dos nossos sentimentos.
Consegui chegar em casa após o congestionamento e uma parte de mim ficou perdida em algum lugar por aí.

terça-feira, 23 de março de 2010

Contabilizando

Vivo em alguns metros quadrados. Trabalho a poucos quilômetros daqui. Meu restaurante favorito está mais distante do bolso do que de minha casa. A música que desejo ouvir agora depende apenas da velocidade de minha conexão para que possa tê-la em meu acervo. Dois travesseiros e fronhas limpas são o suficiente para me deixar confortável. Depois de 15 anos vivendo num mesmo espaço, resolvi contar os azulejos do box para não pensar em mais nada enquanto tomo banho. Tive a oportunidade de conhecer mil histórias vividas por uma só pessoa e mil pessoas que não foram capazes de dizer nada sobre elas. Às vezes tenho a sensação de que sou a última a acreditar na transparência dos atos e a primeira a esquecer o quanto dói não ser retribuída. Já pensei em inventar uma máquina que pudesse calcular a intensidade de minhas paixões, assim não investiria meus pensamentos às cegas correndo o risco de sofrer decepções. Três latas de cerveja são capazes de me provocar ressacas profundas. Pergunto-me se a força do pensamento é capaz de provocar arrepios em outra pessoa. Já viajei trinta horas para desfrutar da luxúria, pura e simples, por vinte e quatro. Esperei dez anos para que o "verdadeiro amor", concebido ainda na adolescência, batesse à minha porta. Caminhei mais de 80km ininterruptamente em busca de paz, mas só a encontrei tomando alguns analgésicos para dores musculares. Contabilizei a profundidade dos abismos que me separaram das pessoas que elegi para amar; aprendi que se permanecer por muito tempo no escuro, perco as referências e não consigo chegar do outro lado: ambos devem se esforçar para superar a distância. Não fui necessariamente bem sucedida nas poucas tentativas que fiz, mas já penso em fazer um curso rápido de engenharia para construir todos os tipos de pontes. Se há algo mágico na contagem do tempo, esta seria a repetição dos algarismos, 23h23, é o melhor minuto do dia e não sei dizer o por quê. Três gotas do meu perfume favorito preenchem minha autoestima muito melhor do que o manequim reduzido. Já li um livro inteiro em uma só noite e até hoje, este mesmo livro ainda é referência para preencher o vazio de quinhentas outras. Estou há dias contabilizando tudo o que possa passar pela minha mente e não tenho resposta para uma única questão: quanto tempo levaria para explicar a real importância de determinada pessoa em minha vida?