Outro dia, quando despejei sobre minha mesa a minha coleção de pedras que me atiraram com o tempo e outros cálculos afetivos que consegui extrair do coração, senti que nunca mais poderia amar alguém. Que nunca mais poderia me permitir ser amada, pois olhar para todas aquelas pedras de minha coleção ainda doía demais. Ainda possuía cicatrizes mal curadas e prontas para sangrar novamente. Não sei como, mas lembrei-me de uma cena muito curiosa em um dos livros do Harry Potter - agora não sei dizer em qual livro - onde o mago Dumbledore mostrava ao aprendiz de bruxo um objeto estranhamente encantador a "penseira". Alí, segundo o mago, ele depositava com a ajuda de sua varinha todos os pensamentos que o atormentavam e que não conseguiria resolver naquele momento, lembranças muito boas e que gostaria de guardar para vivenciá-las com a mesma emoção da primeira vez, e também, alguns acontecimentos dos quais só o tempo poderia ajudá-lo a compreender.
De certa forma, diante de tantas lembranças e cicatrizes latejando por todo o corpo, resolvi, assim como o bruxo da ficção, deixar minhas pedras de molho com água de cheiro. Daquelas preparadas pelas baianas para lavar as escadarias do Senhor do Bonfim.
Essa água preparada pelas negras e a "penseira" fictícia dos livros, responde todos os dias que só o perdão pode fazer diluir as dores do coração e a cicatrizar as feridas em minha pele. Em vez de escudos para me proteger, devo me perfumar com esta água de cheiro. E sobre os assuntos que ainda não sou capaz de compreender, deixo-os na penseira. Outro dia enxergarei minhas falhas e saberei corrigí-las da melhor forma possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário