Num deslize, num lampejo de solidão é impossível não me lembrar de teus dedos percorrendo a pele e tua face estampando um tímido sorriso. Tão especial e único. Único! Bebo, conscientemente, na fonte da saudade com as letras do teu nome em relevo. Esta marca é o meu instrumento e com ele canto o único verbo que é meu: "saudadear".
Neste último sábado, encontrei-me com um amigo músico que não via há muito tempo. Este encontro foi singular porque estávamos em posições bem inversas às de quando nos conhecemos há três ou quatro anos: ele compartilhando comigo a felicidade de se tornar professor de música em uma escola de Educação Infantil Bilingue e eu, negociando a viabilidade de um show com um dono de bar na Vila Madalena.
Imaginem só! Aquele "homão" sorrindo ao falar de suas experiências com os pequenos e o quanto se sentia privilegiado em poder descobrir, através dos olhos delas, um outro modo de enxergar a vida.
- "Canela, é muito engraçado isso! Você convive com as crianças e elas te ensinam um outro modo de nos relacionar com o mundo. Estou feliz!" - disse ele.
Enquanto o dono do estabelecimento foi atender um de seus funcionários, minha mente transitou entre as rodas de conversa e trabalho pela manhã, entre as atividades individuais, nas orientações para resolver um conflito na hora do parque e até (acreditem!) nas discussões entre os professores sobre qual desafio oferecer às crianças para que despertassem o interesse pela escrita ou mesmo ouvissem, minimamente, às orientações dos adultos.
Antes de sair do local (irritada porque não conseguia criar um diálogo consistente e fechar negócio com o empresário) dei um abraço no congueiro. Um dos gestos mais significativos que pudereaprender na Educação Infantil, na tentativa de agradecê-lo por me lembrar de um tempo em que as regras de um jogo ou "combinados" eram bem claros e deveriam ser respeitados até o final.
Todos passaram pela infância, mas poucos tiveram o privilégio de VIVÊ-LA mais do que uma vez!
Embrulhe-se comigo com ou sem palavras
Ajude-me a absorver cada gota salgada que brota de meus olhos
Assim, sem motivo:
Venha, embrulhe, envolva e absorva
Esta dor sem motivo
Este calor sem abrigo
Este pecado sem castigo
Esta solidão... esta solidão!
Embrulhe, leve-a daqui
Quero tanta coisa
E o que está ao alcance
É o que eu não quero.
Embrulhe meus dizeres
Entregue teu olhar
Devolva o que me roubou
Espante o nosso medo